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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

28

Foi um ano pleno. De conquista, de perseverança, de vontade. 

Foi um ano de descoberta, de despedidas, de encontros. De encontro. De partida, de 'até já'. De adeus. De olá.

Foi um ano pleno.

Seguro, feliz, trémulo, assustador. Feliz. Pleno.

Foi um ano Primeiro. 

Sem promessa, de conquista. 

Derradeiro. Essencial. Cru. Vivo.

Um ano Primeiro em decisões, em certeza, em Capaz.

Pleno. 

Foi um ano veloz, de perda, de chegada. 

Pleno.

Sinto-me. Sou. Estou. Faço. Posso. Sou!

Livre.

De sentido. 

 

A casa são os meus. Sim, são meus, no egoísmo do amor que lhes sinto. A casa faz-se de gente. De pessoas. Das minhas pessoas.

 

Obrigada.

Sinto falta de todos. E quero-vos sempre mais.

 

Ainda sobre o Henrique Raposo.

No Alentejo aceita-se o vai e vem, as amarguras das partidas. Sem as partidas de quem, os tais sem Terra nem tão pouco existiriam. Somos povo de pé assente na terra e de sensata sabedoria. A tal, que vem dos tempos dos primeiros abandonos. Esses, nascentes das necessidades de se fazer mais. Contas feitas, pioneiros empreendedores. Talvez sem alentejanos não fosse Loures, cacem, arrebaldes e meia Lisboa. E se os tais não o fossem, certamente não fosse também o fácil aceitar de vidas que vão e se fazem longe da raiz. Sim, aceitamos que cada um se pertence e a ninguém mais. Sabemos que nariz só comandamos o nosso, e a escolha é o maior tesouro que nos pertence. Perdemos filhos da terra no mundo, e outros perdemos da vida. Tarde ou cedo é onde voltamos e afortunados que somos, alentejanos, sabemos reconhecer efemeridade na vida.

Feliz dia dos 'Valentins'

Num fim de semana em que anda tudo à chapada graças à extraordinária efeméride que é o dia de S. Valentim, venho deixar-vos uma sugestão para celebração deste dia que, nas vossas mentes define o tom de todos os relacionamentos: 12h00 - Arsenal vs. Leicester; 14h05 - Aston Villa vs. Liverpool; 16h15 - Man. City vs Tottenham Para quem não tem BTV, sugiro o feed2all. You're welcome.

...

Amor, hoje eu vi o futuro. Hoje eu vi a nossa família. Hoje eu vi a nossa felicidade, amor. Não tem sido um caminho fácil, amor. Não tem. Mas é o nosso caminho e é isso que nos faz. Seremos o nosso caminho, amor. E merecemo-lo. Hoje eu vi o futuro, amor. Sim, vi o futuro. É nosso. Tão fruto da nossa persistência. Tão fruto das mãos dadas, amor. Sim, o nosso futuro. Se tu visses amor! Como sorríamos aquele nosso sorriso. Aquele idiota, amor. O das tontices de horas passadas a dizer palavras sem sentido. Caricaturas. E é esse o nosso sorriso, amor. É esse o sorriso do nosso futuro, que eu vi. Esse futuro, amor. É tão bonito! Vais gostar. Vais gostar muito de te encontrar comigo lá. Foi tão breve, amor. Uma visão que me veio e que me foi. Tão breve é tão bastante para que a sentisse acontecer. Sou uma privilegiada, amor. Por segundos, pude sentir-nos num momento que está para vir. Segundos, amor. Que me bastaram as certezas, que me bastaram as dúvidas, que me bastaram as forças. Que me bastaram os medos. Segundos, amor. Que me encheram e preencheram. Obrigada amor, pela viagem. Obrigada pelo caminho de mãos dadas. Pelo nosso caminho torto e frágil, que é nosso. Nosso como o futuro, que eu vi. Torto e frágil. Tão sólido, tão forte, tão bonito, o destino que descobri. E enchem-me e preenchem-me as mãos dadas, amor. Tortas, frágeis, magoadas, mãos dadas. Fé abalada, fé perdida, fé duvidada. Não tenho fé em nós, amor. Hoje vi o nosso futuro. Vi a nossa família. Hoje senti o nosso amor, amor. Existimos. Estamos a chegar. Não tenho fé em nós, amor. Já somos a nossa fé. Hoje vi o nosso futuro, amor. Ele tem caracóis, e ela, cabelo liso como o meu.

Cuidado com o cão!

As redes sociais podem ser uma arma perigosa. A esta altura já todos o sabemos e não surge como novidade para ninguém. Todos, uns mais que outros, as utilizamos, com mais ou menos responsabilidade. Para gáudio do humor e do ridículo, a grande maioria do povo, com menos responsabilidade, com tremenda falta de bom senso, e com assustadora incapacidade de medição de consequências. Emocionais, sociais, pessoais, criminais... Todo o tipo de consequência.

E há pessoas que são simplesmente estúpidas. Julgo que serão o expoente da crença de que a ignorância é uma benção. E uma desculpa. Só que não é.

Porque vivemos numa sociedade virtual global e retardada, a grande maioria de nós, não perde tempo em atirar pedras - as tais, virtuais - ao próximo. Ainda não aprendemos que escrever uma frase atrás de um ecrã, não é só escrever uma frase atrás de um ecrã. Mais uma vez, na maioria dos casos, é apenas idiotice. Como não verbalizamos, esquecemos-nos de medir as palavras.

O que acontece é que, com as redes sociais habituámo-nos a estar a um clique do político, da figura pública, da instituição, dos jornais e das revistas. Tão próximos quanto vizinho do lado. E o que acontece, é que as opiniões, os desagrados e as frustrações para com todos esses agentes, passam a ser publicados numa página pública. Geralmente, com o objectivo de que o impacto popular seja maximizado, gerando mais reações, e o agente representado virtualmente aja de forma a resolver a tal situação.

Quando desta noção de realidade virtual/aldeia global participa uma sociedade real, no caso prático, uma vila do interior do país, o potencial de colisão é elevado ao quadrado. 

No Vimeiro, ou, em Vimieiro (como o meu amigo E. sempre escreve, sendo que eu gosto de o fazer também) toda a gente conhece toda a gente. Toda a gente fala sobre toda a gente. Toda a gente critica toda a gente. Toda a gente faz disparates, toda a gente diz verdades e toda a gente diz mentiras. Sobre toda a gente. É maravilhoso e reconfortante, na verdade. Não, não estou a ser irónica.

Também toda a gente está no facebook. Até a Junta de Freguesia. As conversas a meia voz na esquina não desaparecem porque estão na internet. Limitam-se a ganhar novas proporções.

Caso prático? 

Gerou-se na terra um burburinho de indignação para com um determinado funcionário da Junta de Freguesia. Parece que este senhor dedica, ou dedicava, grande parte do seu horário laboral, ao seu pedaço na horta comunitária da vila, em detrimento, das funções diárias que lhe estão atribuídas. Sim, esta pessoa, vamos chamar-lhe Sr. Manuel (essencialmente,porque é este o nome dele), é a epítome do preconceito que nos leva a desprezar um funcionário público. Obrigada Sr. Manuel.

Calhou que, uma conversa que seria de esquina, se transformou num comentário no facebook. Na página da Junta de Freguesia. Calha que o Sr. Manuel é a quem a Junta atribuiu a função de 'mestre de obras' - ajuda a população sénior a realizar pequenas empreitadas sem gastos com a mão de obras (aplauso para esta iniciativa, pioneira no concelho). E calha que que foi num destes dias, partilhado em forma de fotografia um panfleto da iniciativa. Calhou que uma senhora, vamos chamar-lhe Dona Angélica (porque é esse o nome dela), ou chamar-lhe mãe da Sara, como preferirem, intrometida como só ela, fosse publicamente brincar com a falta de ética laboral do Sr. Manuel. A Dona Angélica/Mãe da Sara não ofendeu, não foi agressiva e nem julgou o Sr. Manuel. Não me surpreendiria se o tivesse julgado ou usado um tom mais sério, mas de facto não o fez. 

O erro da Dona Angélica/Mãe da Sara é que utilizou o facebook para dar conta de uma questão, que mais ou menos, melindra a população (esta rima não foi propositada), da qual todos tinham conhecimento e que todos comentavam, mas sobre a qual nenhum responsável, até à data (hoje, não sei), tomara medidas.

O Sr. Manuel terá visto o comentário da Dona Angélica/Mãe da Sara e parece não tê-lo apreciado. Calha que a falta de profissionalismo só é notada se for feita pública virtualmente. Não há qualquer problema em ser calão conhecido, desde que fora da internet.

Eis que surge a defesa do Sr. Manuel! Homem de bons valores, responsável, ético, eco da moral e senhor de uma razão inolvidável, o Sr. Manuel decide responder, pelo mesmo meio virtual, à Dona Angélica/Mãe da Sara.

E de que forma justifica o Sr. Manuel o seu comportamento sedentário no decorrer do horário que seria laboral? Tão simples, tão claro, tão óbvio! Já dizia o outro que a melhor defesa é um bom ataque... O Sr. Manuel atacou da melhor forma que a estupidez e a ignorância lhe permitem:

Chorrilho de adjectivos depreciativos. - Clássico, que nunca passa de moda.

E, depois, as grandes armas:

Tem três filhos de três homens diferentes.

Esteve presa.

E, em interpretação livre, se estivesse estado presa ao mesmo tempo que o Sócrates teriam tido um belo filho.

Sim. Foi isto! Mas não satisfeito com a falta de resposta da Dona Angélica/Mãe da Sara, às suas palavras, pegou na sua carrinha, conduziu até ao Monte dos Domingos, e resolveu fazer uma espera à antiga.

Que homem, meu Deus! Que homem, este Sr. Manuel!

Sr. Manuel, se estiver a ler isto, há três ou quatro coisas que eu gostava que retivesse:

O nome Angélica, é escrito desta forma. Não há 'Anjélica' no dicionário, pelo menos no português, ou pelo menos, neste caso. Não tem de quê.

E sim, a Dona Angélica/Mãe da Sara, é realmente pequena, baixinha, admitamos. Só que do baixo metro e sessenta que lhe assenta, é muito mais homem do que o Sr. Manuel algum dia será.

Agora vá lá trabalhar e fazer o que lhe compete. Afinal de contas, não é para ser estúpido que lhe estamos a pagar. E Deus queira que não tenha tido a diarreia verbal no facebook durante o seu horário de trabalho. Quanto à carta que enviaram à Junta a denunciar a sua inércia profissional, só lamento realmente que não tenha sido a Dona Angélica/Mãe da Sara, a escrevê-la. Pode ser que sirva para que finalmente o metam na linha ou o metam a mexer. Há muita gente a querer trabalhar. Na mesma medida lamento que ela, de facto, ao contrário do que também foi escrever na sua página facebookiana, não tivesse nenhuma caçadeira à mão para lhe pregar um valente susto quando achou que ia conseguir intimidá-la à porta de casa.

Ganhe juízo Sr. Manuel. Vá trabalhar.

 

 

O dia em que o David morreu.

O dia em que nada mudou.

O David morreu. Tinha praticamente a minha idade. Os quase 30. Trinta que não lhe chegaram. Chegarão apenas em jeito de memória de quem o conhecia e amava.

Está muito errado este país. Este Portugal, o tal à beira mar plantado, que insiste em esquecer os seus, os que se foram e os que lhe serão. Está muito errado.

E assim permanecemos. Assim continuamos. Escolhendo os lamentos por vez da acção. Que raio interessa a demissão de médicos, ministros, pessoal da limpeza, quando o David já morreu? Em que mundo acreditamos quando uma solução que não foi viabilizade durante anos, em meia dúzia de horas surge qual salvador de uma pátria adormecida? Enquanto o David morria, e com ele um pouco de cada familiar, namorada e amigos, não havia respostas. Nada podia ser feito. Não houve equipa que lhe jurasse Hipócrates.

 

Que vergonha. Que hipocrisia alucinante. Porque a namorada do David escreveu uma carta. Porque existe facebook e essa carta tornou-se viral, ontem já todos conhecíamos o David. E hoje estava em toda a comunicação social. Então viram-se forçados a dar uma resposta. Danos colaterais. Esses foram os demissionários. Alimentar o povo com a ideia de uma punição que nunca terá lugar.

É que a podridão não está neste ou naquele cargo. A podridão está bem entranhada num sistema político que nada tem de social ou solidário. E lá continuará.

O David estará no meu pensamento durante meia dúzia de dias. Sinto-me indignada, ultrajada por este país que me deveria cuidar para que o cuide também. Mas a minha vida continuará a correr, a correr mesmo, e o meu umbigo voltará a estar cheio de mim e eu voltarei a entregar-me a ele.

O sistema, esse, continuará podre. Surpreendentemente podre. E a gerar danos colaterais que o justifiquem. 

A carne e os canhões. A areia e os olhos.

Marketing. Puro marketing.

E tu? Indignado e sentado no sofá.

Nada mudou.

E se eu o amava, o que raio podia fazer?

Há alguém a quem deves um pedido de desculpas. Há, sim. Há sempre alguém. Errar é-nos tão intrínseco como a própria respiração.

Provavelmente nunca te irás desculpar. A quem queres enganar? Com toda a certeza nunca te irás desculpar. O erro, o orgulho, a respiração. Intrínsecos. E tudo se resume ao amor. À intensidade com que amas, com que te perdes num amor que consomes. Um amor em que te queres arder.

Descobres-lhes a importância no momento em que te encontras. Fizeste o teu caminho. Trilhaste vidas, caçaste emoções, respiraste lágrimas, sobreviveste a murros no estômago. Encontraste-te. A ti que te buscaste incessantemente desde aquele instante que nem vive na tua memória, aquele instante em que choraste pela primeira vez. Tu sabes. Quando a tua mãe te pariu.

Enfim, o amor. Não tem tempo, ou prazo ou memória. O amor.

Amas porque te amas. Porque aprendeste a amar-te.

Orgulha-te, sem lamentos, das asneiras que te tomaram a vida. Orgulha-te das mágoas. Dos corações partidos. Orgulha-te dos porquês, dos para onde, dos que faço aqui. Dos quem sou. Orgulha-te do desespero de uma perda anunciada. Orgulha-te. Até do tempo que demoraste a perceber que o caminho às vezes faz-se para trás. Orgulha-te porque a tua estrada era tua e tu clamaste-a no teu momento.

Orgulha-te até desse pedido de desculpas que deves a alguém.

 

Quando te encontraste foste privilégio. És privilégio. O privilégio do amor. Ganhaste-lhe a manha, um segredo que não existe por sermos nós. Cada um de nós.

Orgulha-te por te teres conhecido.

Assim é o amor.

 

E se o amas, o que raio podes fazer senão amar?

 

Ho Ho Ho

Então é Natal... e eu gosto tanto do Natal! O cheiro, a comida, o frio, as luzes, o conforto, os presentes... Natal! A época (muito provavelmente) mais consumista do ano inteiro e à qual não conseguimos resistir. Essencialmente, porque a maioria de nós não está imune ao sentimento de obrigação da oferta da lembrança, do presente caro, do amigo secreto, etc.

No que a mim toca, a postura relativamente a compras de Natal rege-se de forma simples: Gosto de alguém. Descubro algo que vai fazer esse alguém sorrir. Posso conseguir/proporcionar/adquirir esse algo. Está feito. Não tem a ver com 'conheço esta pessoa desde sempre', ou 'ele(a) oferece sempre qualquer coisinha', ou 'é família, portanto tem mesmo de ser'. Se não tiver qualquer tipo de significado, não tem qualquer valor. E também não há qualquer valor que possa acrescentar algum tipo de significado. E estou perfeitamente a borrifar-me para se vou receber algo em troca ou não! Recebo sempre o mais importante. O sorriso verdadeiro de quem me diz muito e é tão especial.

Seja como for, não era sobre isto que queria falar.

Escrevo este texto com a Puma ao meu colo, a ronronar. Mal consigo ver as teclas porque a cauda dela anda aqui de uma lado para o outro. O Natal é muito este amor. No meio de tradições perdidas, de ficções, de religiões, de criatividade, de marketing e publicidade, o Natal é isto. É amor. Não amo mais a 24 de Dezembro do que noutro dia do ano. Nada disso. Mas na noite de 24 de Dezembro, o meu coração transborda de amor por estarmos juntos mais um ano, mais uma noite, apesar das dificuldades, dos desentendimentos, das parvoíces, da distância e dos desencontros. É Natal, e não há desculpas que nos afastem. Contam-se as mesmas histórias de família, fazem-se as mesmas piadas desconfortáveis, vêem-se os mesmos filmes, comem-se os mesmos pratos, riem-se os mesmos risos das tais histórias que se repetem há anos, e estamos juntos. Estamos juntos na certeza de que, por uma noite, permanecemos iguais. E isto é Natal. Amor. Família. Amor.

Que se lixe quem me diga o contrário! 

Temos bacalhau cozido, couves e batatas. A mãe faz aletria doce, que eu sempre peço. A mousse de chocolate de verdade que o mano e o avô Zé gostam, o arroz doce da Avó Maria que nos vê lá de cima, e se ele se tiver portado bem, até faz a baba de camelo para o pai João. A mana come de tudo porque é uma gulosa. E a tia Maria é responsável pela Bûche de Noel, que ela esteve emigrada e é a especialista do tronco.

E, à meia noite abrimos as prendas. O mano oferece chocolates (eu acho que ele é demasiado preguiçoso para escolher outras coisas!) e encontra forma de queixar-se de um ou outro presente que recebe (costuma calhar-me a mim). A tia esconde sempre uma surpresa no saco da prenda principal. A mãe diz que foi ela que comprou as prendas enquanto o pai João insiste que são dos dois. A mais nova é uma abusada e, se por um lado, não se queixa dos chocolates do irmão, três meses antes do Natal começa a massacrar-me com pedidos e mais pedidos. O avô Zé vai rindo e bebendo um copinho enquanto o filho lhe diz que já bebeu demais e a nora o quer empanturrar com mais comida. E conversa continua, e a mãe come mais um doce, o pai João deixa três ou quatro presentes por abrir, e nós continuamos a rir.

Eu gosto do Natal. E este Natal é muito meu. Que não se perca este Natal. Que me aquece, que me conforta, que me dá força, que me ama, que me lembra de amar, um ano inteiro.

 

Feliz Natal. E que se sintam tão afortunados como eu. As pessoas, sempre as pessoas. 

 

 

...

Para mim é como se ela tivesse morrido e eu sobrevivo na sua morte.

Foi uma daquelas mortes repentinas que nos mata de surpresa e de morte.

Sim, ela morreu. E eu faço-lhe o luto todos os dias. Sobrevivo ao pedaço de mim que morreu, e à alma morta que lhe descobri.

Sim, ela morreu. Morreu-me tão repentina, tão estúpida, tão pequenina. Esperava-lhe mais. 

O luto é um monstro. Transforma, corrói. Faço-lhe o luto todos os dias. 

Perdoo-lhe a ignorância de me ter morrido, ainda que não lhe perdoe a sua morte. Esperava-lhe mais.

Ela morreu. E eu repito todos os dias e todos os dias me dói. Sim, ela morreu-me. 

A morte não tem cura. 

 

Perdoo-te a ignorância de me teres morrido. É essa a tua benção. Mas nunca perdoarei a tua morte.

Parabéns.

Sobre a praxe académica.

No ano passado, abstive-me de comentar a catástrofe, transformada em carnaval, que foi a morte dos miúdos no Meco. Subitamente toda a gente discutia a praxe, e os especialistas surgiam aos molhos quais treinadores de bancada, com opiniões mais ou menos estúpidas sustentadas em argumentos mais ou menos ridículos com muito pouco sentido e analogias do arco da velha. Uns baseados em experiência própria e outros baseados em coisa nenhuma. Abstive-me de comentários porque não gosto do carnaval. Nunca me hão-de apanhar em Torres Vedras nessa semana anual de loucura e perdição, da mesma forma que não me apanham nos bairros lisboetas em dia de Santos Populares, ou no Marquês de Pombal em dia de festejo do campeonato nacional. Não gosto do carnaval, como não gosto de ajuntamentos populares. E se tenho horror a ajuntamentos físicos, abomino em absoluto ajuntamentos pseudo-intelectuais, pseudo-especialistas, e cujo principal e terrível objectivo é influenciar e transformar uma opinião pública cada vez mais preguiçosa e que pouco ou nada procura informar-se. É desta forma que se aterrorizam massas, se fomenta a ignorância, e se propagam os radicais e os extremistas.

Bom, abstive-me de comentar este, como me abstenho de comentar outros assuntos que quase já chegam esgotados à praça pública, depois de trucidados por uma comunicação social que já não informa e se resigna à moderação dos debates entre quem comenta. Os tais especialistas. Da treta.

Mas hoje voltou a estar na ordem do dia. E, antes que veja/leia mais alguma coisa, que não a notícia que foi registada inicialmente sobre o tema, registo também eu sem que ninguém mo tenha pedido/pago pelos meus pensamentos. Afinal, sou tão especialista em praxe quanto qualquer outro. 

Em primeiro lugar quero fazer notar que fazer uma comparação entre esta tradição e outras como a tourada, largar fogo a gatos, ou os casamentos infantis, faz tanto sentido como, propositadamente, dar um tiro no próprio pé. Menos, até. Existe mais lógica na crença de que matar infiéis dá direito a 72 virgens quando se chega ao equivalente ao céu islâmico, do que nesta noção que já vi defendida por aí.

Vejamos o seguinte:

Tourada/Tauromaquia: Espectáculo em que homens que se apelidam de toureiros/cavaleiros, incitam um touro bravo ou não, a lutar até à morte, no recinto ou não. A lutar é como quem diz, porque feitas as contas, o animal morre sempre. Tudo para gáudio de uma assembleia popular que se regozija perante o assassinato de um ser vivo sem poder de escolha ou decisão. Um homem é aplaudido por uma multidão, que festeja a morte como se de uma luta pela sobrevivência se tratasse.

Queima do gato: Auto-explicativo. Parece que remonta ao tempo do celtas, esta tradição. O homem associou há tempos o gato à prática da bruxaria, e o gato, que não fala a mesma língua, é pequeno e fácil de apanhar, viu-se sujeito durante séculos à morte pela fogueira. Agora já não morre, apanha só um sustozinho. 

Casamento infantil: Os adultos existem para mandar. As crianças existem para ser mandadas. Escolher é um privilégio dos adultos do sexo masculino. Se um homem com 60 anos decide casar com uma criança de 6 ou 7, que capacidades/armas tem essa criança, cuja personalidade não tem oportunidade de desenvolver-se, para se defender? 

E depois temos a praxe. No caso, a praxe académica.

Em teoria, um conjunto de costumes e convenções baseados numa relação hierárquica e usados por estudantes mais velhos de uma instituição do ensino superior, de forma a permitir a integração dos mais novos no meio académico.

Na prática, exactamente o descrito em cima. Costumes e convenções talvez não tão convencionais consoante a cidade, a universidade, a escola, ou sobretudo o estudante que os pratica. É certo que há quem fique cego por um poder que não é real nem estendido pelo tempo. É certo que há quem queira esticar a corda até quase partir. 

Em semanas de praxe corremos, saltamos, gritamos até ficar sem voz, brincamos com coisas estúpidas, subimos e descemos as mesmas ruas vezes sem conta, comemos mal e lavamos louça de meses que alguém acumulou especialmente para nós, caímos no chão quando alguém grita 'granada', respondemos quando nos tratam por bicho, passamos frio e calor, acordamos cedo e vamos dormir tarde. Bebemos muito. Levamos com mistelas no cabelo que se forem lavadas com água quente o transformam num bolo, cumprimos horários, vestimos a mesma t-shirt suja dias seguidos, desesperamos e rimos quando nos mandam olhar para o chão. Fazemos coisas tão desprovidas de sentido como escrever dissertações sobre a caça dos gambuzinos só porque alguém com mais matrículas nos pediu. 

Em semanas de praxe, somos idiotas puros. Idiotas felizes. Idiotas que criam laços, porque partilham experiências daquelas do riso que leva às lágrimas. Descobrimo-nos e descobrimos um mundo que nos pertence e ao qual pertencemos porque conseguimos chegar ali. Porque quisemos chegar ali. 

Não. Não é a praxe que nos torna mais universitários, mais licenciados, mais estudantes. 

A praxe é uma escolha. Nunca uma obrigação ou uma condição. Não vai influenciar as tuas notas, ou negar a tua integração social. A praxe é uma experiência, um primeiro contacto com a cidade que te vai acolher e com as pessoas de que vais partilhar. Uma escolha. E aceitá-la não significa fechar os olhos, negar limites e obedecer inconscientemente a quaisquer imposições. 

Ser praxado não significa abdicar de vontade própria, de crenças ou princípios. Não tens que ultrapassar os teus limites. Podes testá-los, se quiseres. Por-te à prova e descobrir até onde estás disposto a ir. Se assim escolheres. Mas tens de escolher. Esse é um direito teu do qual não deves abdicar. A menos que queiras fazê-lo.

Por cada veterano estúpido cujo pico social é a falsa sensação de poder de uma praxe, há um caloiro estúpido que cede à tal obediência cega. A falta de carácter é tão gritante num como no outro.

Então, onde é que está o problema?

Não me falem em pressão dos pares ou tretas sociológicas semelhantes. Com 18 anos não somos de vidro. Já sobrevivemos a grande parte da adolescência. E a educação veio de casa. Dos pais. 

A minha mãe ensinou-me a bater o pé. A defender-me. A dizer não quando quero dizer não. A arriscar. A escolher. E a sobreviver com e às minhas escolhas.

Com 18 anos e no primeiro dia de praxe, eu era adulta e sabia escolher. Já me tinha sido ensinada a importância da escolha. A liberdade da escolha.

Foi a minha mãe.

E se a chamassem ao hospital, no final da primeira semana de praxes porque deixei que me enterrassem até à cabeça na areia de uma praia, e bebi ao ponto de ter de me ser feita uma lavagem ao estômago porque um estudante qualquer me obrigou, ela dava-me uma chapada na cara. E era bem dada. Não foi isso que me ensinou.

 

*Se fosse eu a escolher beber até entrar em coma, ela provavelmente ria-se da minha cara, cortava-me a semanada, e atirava-me isso à cara em todas as festas de família, para o resto das nossas vidas. 

 

 

 

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