Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Greve: Direito ou Dever?

Factos:

 

Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais trabalhadores precários;

No 2º trimestre de 2012 o número de trabalhadores precários e desempregados ultrapassou pela primeira vez a metade de toda a força de trabalho em Portugal;

Um terço dos precários, são contratados através de empresas de trabalho temporário;

O negócio das empresas de trabalho temporário é a comercialização dos trabalhadores para outras empresas.

 

 

Permiti-me a ousadia de assumir que um trabalhador é uma pessoa, e pesquisar no google as palavras 'comercialização' e 'pessoa'. Instantaneamente, a pesquisa assume que o meu objectivo será encontrar informações acerca de tráfico humano, e salta-me à vista a frase seguinte:

 

'O tráfico de seres humanos constitui uma violação dos direitos humanos e uma ofensa à dignidade e integridade dos seres humanos.'

 

Achei curioso que o meu interesse pelo tipo de contrato de trabalho de metade dos portugueses activos, pudesse levantar uma questão tão grave e séria como esta do tráfico humano.

 

Por não ser uma pessoa extremista, e ter horror a qualquer tipo de ideia radical que possa toldar o bom discernimento, não aceitei esta associação, demasiado fácil para as mentes corrompidas.

 

Pesquisei 'dignidade humana' e saltou-me à vista uma frase do filósofo Immanuel Kant:

 

'No reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode pôr-se, em vez dela, qualquer outra coisa como
equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade'

 

Pensei novamente na comercialização do ser humano, trabalhador.

Timidamente, encadeei o pensamento de Kant no negócio das empresas de trabalho temporário, as mesmas que promovem a precariedade. Reflecti. 

 

A dignidade é um direito inviolável de todo o ser humano. Ou pelo menos, devia sê-lo. a dignidade não tem preço. Está acima de tudo. O ser humano é digno, porque a humanidade não pode ter preço. O trabalhador é humano. As empresas de trabalho temporário vendem trabalhadores. Mas se o trabalhador é humano, tem direito à sua dignidade. E para existir dignidade não pode haver preço. A dignidade é um direito de todo o ser humano. A precariedade é, entre outras coisas, a venda do trabalhador. O trabalhador é humano. O trabalhador humano tem direito à sua dignidade. A violação da dignidade é uma violação aos direitos do Homem.

 

A precariedade constitui uma violação da dignidade, uma violação aos direitos do ser humano?

 

Este pensamento, deixou a minha cabeça a andar à roda.

Assentei os pés na terra e pensei novamente em factos.

 

Pensei nas grandes empresas que contratam as empresas de trabalho temporário. Pensei nos trabalhadores, nos efectivos, dessas empresas. Pensei nos seus salários, nas suas regalias (seguros de saúde, campos de férias para os filhos...), nas suas cargas horárias, nas suas formações académicas e profissionais e nas actividades que realmente desenvolvem.

 

Pensei nos trabalhadores que são vendidos às grandes empresas, pelas empresas de trabalho temporário. Contratos semanais, quinzenais, mensais...Locais de trabalho sem ventilação adequada, mal iluminados, onde falta a água e o papel higiénico. Pensei nas cargas horárias de uns e outros e comparei mentalmente a tabela de vencimentos, envergonhando-me ao constatar as diferenças. Pensei nas formações académicas e profissionais, e nas actividades que desenvolvem, e voltei a sentir a vergonha que não deveria ser minha, mas de quem contrata uns e outros, hipotecando presentes e futuros, diariamente.

 

Sou eu que faço governos, que desenvolvo ideias, que proponho leis, que mando no mundo. Sou eu e cada pessoa que acorda todos os dias, se levanta todos os dias, pensa todos os dias, e age todos os dias.

Não sou eu que falo no café. Não sou eu que choramingo pelos cantos. Não sou eu que me conformo com uma palavra. Não sou que tenho medo quando gritam 'Não!'. Não sou eu que me limito ao 'Não adianta de nada.'

Sou eu que quero ser mais. Sou eu que quero viver um futuro. Sou eu que também quero deixar a minha marca. Sou eu que quero ter filhos, uma casa, um carro, ou outra coisa qualquer. 

 

Sou eu que tenho motivação. Sou eu que posso mudar a minha vida, a vida do colega que está ao meu lado e passa necessidades todos os dias. O colega que todos os dias dá voz à empresa que não sabe que ele existe. À empresa que ignora que, ao chegar a casa, ele não tem leite para dar de beber ao filho.

 

Fazer nada é fácil. Dizer que ninguém nos ouve também. Só que, eu aprendi no meu primeiro ano de faculdade que se não nos ouvem, gritamos mais alto.

 

 

16 de Dezembro de 2013

 

2 comentários

Comentar post

O Castelo

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D