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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Um homem

Era uma vez um homem e uma mulher. Nunca os conheci, mas conta quem viu, que foram, em tempos, um casal feliz. Do seu envolvimento, amor podem chamar-lhe, nasceu uma criança. Uma menina. Salvo o erro corria o ano de 1976. Entre esse homem e essa mulher, meteu-se o tempo. Entre esse homem e essa mulher, cresceu a distância de um país. Correm histórias de que, enquanto seres no mundo, não podiam ser mais diferentes. Ela, uma senhora de convicções cristãs e educação austera. Ele, um activista revolucionário. Um homem de 8 ou 80. Quis a vida que se envolvesse numa organização extremista, e clandestina, conhecida como Forças Populares 25 de Abril. Este envolvimento, e a sua natureza marginal – aliados, possivelmente, a outros factores próprios de qualquer relação -, viriam a desgastar e a ditar o término do seu relacionamento com a mulher, mãe da sua filha.
As acções mais ou menos violentas, mais ou menos condenáveis – fora da Lei –, praticadas por si e pela sua organização, obrigavam este homem a passar a maioria dos seus dias, escondido da sua identidade. Tratando-se de um homem naturalmente desapegado do mundo, em todo esse tempo, não surgia em si a preocupação ou interesse pelo bem-estar e crescimento da filha, deixada para trás, aos cuidados da mulher. - Longe da vista, longe do coração.
É numa destas alturas, em que foge ao julgamento da sociedade, que este homem encontra outra mulher. Apaixonam-se. Talvez tenha, com ela, mais em comum pessoal e ideologicamente, do que com a sua primeira mulher. Vivem um amor livre, porém, limitado, pela marginalidade deste pseudo-revolucionário. Ela tem conhecimento do seu passado, e do seu presente. Ela aceita a sua natureza, e compreende as suas imperfeições afectivas. Toma conhecimento da sua primeira mulher e da sua filha, a essa altura, talvez com 8 anos. Esta mulher, tão diferente da outra, nada austera ou de catequeses, procura melhorar a relação entre pai e filha, perdidos um do outro no tempo. A filha parece aceitar a nova relação do pai, aos poucos, nos fins-de-semana que vai passando com os dois. Infelizmente, findos esses fins-de-semana, o regresso a casa, traz-lhe as dúvidas, o ressentimento pela mulher que – incitada por uma mãe amargurada – considera ter destruído o seu lar.
Do homem, com a nova mulher, nasce um bebé. Entre trocas de tiros e prisões, nasce outra filha. O pai está preso e a mãe também. Esta filha, nasce condenada. Não pela prisão dos pais, não pela sociedade, que a desconhece. Esta filha nasce condenada pela primeira mulher, e pela sua filha, com 10/11 anos de idade. Esta filha nasce condenada pela família de um pai que não escolheu.
A segunda filha deste homem, que não fez mais que fugir de si próprio, escondendo-se atrás de convicções políticas, nasce condenada pelos seus actos. Condenada pelo esquecimento à primogénita. Por ser filha da mulher que destruiu o casamento do seu pai.
A segunda filha deste homem, nunca há-de conhecer a irmã. Nunca há-de ser procurada pelos familiares paternos. A segunda filha deste homem, crescerá com o sentimento constante de falta. Falta do conhecimento de uma parte de si. Há-de crescer com o ressentimento, bem escondido, de não ter sido desejada por uma parte da sua família. A segunda filha deste homem, crescerá com a secreta tristeza de não conhecer a sua irmã.
Esta filha, que não foi a primeira, crescerá sem compreender o motivo da indiferença, do desinteresse, da sua irmã crescida, que nunca quererá conhecê-la.


Este homem, virá a desaparecer. Antes disso, irá trair a segunda mulher com a advogada de ambos. Muito tempo se irá passar até voltarem a existir notícias sobre o seu paradeiro. E, como veio a verificar-se com esta sua fuga, foi sempre a sua natureza a ditadora da clandestinidade. Foi sempre um traço seu, ao qual foi fiel, mesmo após ter sido declarada amnistia aos seus crimes.
O homem, esqueceu duas mulheres – três, contando a advogada –, duas filhas e partiu. Longe da vista, longe do coração.

Era uma vez um homem. Este homem chegou a Angola, conheceu uma mulher. Apaixonaram-se. Desse amor, nasceu uma filha. Aconteceu no ano de 1996. 20 anos depois da primeira, 9 anos após a segunda.

Três irmãs. Desconhecidas. Sem pai. Sem culpas. E se eu percebo isto, como é possível a minha irmã – a primeira –, não conseguir compreender?

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