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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Família

Às vezes não conseguimos perceber o que passa pela cabeça das pessoas de quem gostamos. Das pessoas que são a nossa família. Não conseguimos compreender por que se afastam, por que deixam de falar connosco, por que se fecham. Às vezes não conseguimos perceber se errámos ou se falhámos de alguma forma. Porque quando as vimos pela última vez, tudo parecia bem e no lugar certo. Às vezes não conseguimos perceber... E o pior, é mesmo essa dúvida. Resta-nos acreditar que, eventualmente, falarão connosco e tudo se comporá. A família é o mais importante. E nunca devemos desistir dela. Devemos respeitá-la e nutri-la. E sempre, sempre que houver uma ameaça de mal-entendido, devemos falar. Falar, nunca é demasiado.

É um tanto ou quanto complexa esta história da família. É uma temática delicada, pelas ramificações que, muitas vezes, a envolvem.

Na minha, em particular, as ramificações são quase infinitas.

A minha família materna é uma família de mulheres. Verdadeiras ‘mulheres de armas’, com garra, com uma força por vezes, sobre-humana. Carregam o mundo às costas, cada mundo, à sua maneira. Gostam de carregar o mundo às costas. É uma particularidade muito própria de cada uma delas.

São tão independentes que lhes custa aceitar que não estão sozinhas, e que não é sinal de fraqueza, aceitar uma mão.

Têm fantasmas e situações que nunca resolveram a tempo de ficarem esclarecidas, e essa é a maior fraqueza de cada uma delas. É uma fraqueza que, ao olho mais atento, é impossível de escapar.

São três irmãs, dois cunhados, uma cunhada, dois filhos, cinco filhas e sete sobrinhos. Havia um avô-pai que partiu há muitos anos, um irmão-filho que perdemos anos depois, e uma avô-mãe cuja presença física também deixou de existir.

Os homens, por um motivo ou outro, sempre assumiram um papel secundário em toda a história. Curiosamente, um deles, o mais velho filho-neto-sobrinho, foi talvez a maior fonte de discórdia e polémica entre todas. Curiosamente, também, nunca o assunto foi discutido abertamente.

A comunicação é essencial. Sobretudo quando gostamos, quando amamos e quando queremos bem. O desagrado não pode mascarar-se de sorriso, nem a inveja, que não é pecado, é humana. Discordar é crescer e fazer evoluir qualquer relação. Significa honestidade. E, em família, devemo-nos honestidade e respeito.

O último ano tem sido difícil. Muito difícil para a família. Parecem ter-se perdido no caminho alguns valores que não devíamos esquecer. Provavelmente não foi por maldade, não foi com intenção de magoar. Mas é o que tem acontecido.

Estou cansada de ver as pessoas que eu gosto tão magoadas todos os dias. Estou cansada das lágrimas. Estou cansada dos ataques inconscientes e das atitudes não pensadas. Estou cansada que se esqueçam de quem foram, do que significaram, do que viveram, e de como se gostam.

Não é tarde para dar um passo atrás, engolir um orgulho sem sentido e admitir que erraram. Não é sinal de fraqueza. É sinal de que são GRANDES. É sinal de que são muito mais, muito melhores do que uma atitude menos correta num momento inoportuno.

Desde quando uma vida pode valer menos do que uma noite? Uma única noite! E desde quando pode fazer sentido que uma vida de companheirismo, de confidência, de amizade, de apoio, seja esquecida porque um dia esqueceram-se de falar?

Vocês são o exemplo com que cresci. Não se desiludam mais.

Chega de hipocrisias, chega de desculpas e chega de influências externas.

Chega de mentiras que contam a vós próprias para não lidar com a dor que provocaram a vós e à vossa família.

Foram um pilar.

Eu sei, todos sabemos, que não voltarão a sê-lo. Eu sei, todos sabemos, que não haverá tempo suficiente no resto da vida para recompor o que ficou estragado.

Mas chega de ser podre. Chega de cortar braços ou pernas metafóricas. Chega de ignorar o mal que é palpável. Chega de pensar que um dia tudo de resolve ou que se for preciso vão estar lá. Isso é areia nos olhos. Nos vossos e de mais ninguém.

Chega de mortes metafóricas no metafórico fogo cruzado.

Falar não dói. Palavras são isso mesmo, palavras. Tudo o que já foi feito doeu. A todos, tanto quanto a cada pessoa de vós.

Nós somos família. Nós sobrevivemos. Nós devemo-nos respeito, honestidade e coragem.

‘Chamar as coisas pelos nomes’, apontar o dedo, discordar, contrariar muito. Viver o oposto dos conselhos de todos. Errar muito. E voltar para chorar no ombro, pedir desculpa, assumir erros e rir os risos sonoros de quem se valoriza acima de tudo o resto.

Vocês já fizeram tudo isso. Lembram-se?

As coisas nunca voltarão a ser iguais. Não há tempo que chegue no tempo.

Mas há tempo para honestidade. Ainda há tempo para coragem.

Eu ainda acredito.

E eu sou o perfeito exemplo de asneiras e discórdias.

Ainda assim, acredito.

O tempo não é nosso amigo, e a questão para mim, é simples:

Se ele passar e uma de vós desaparecer, vai ter valido a pena?

Um dia vais apaixonar-te.

Um dia tu vais apaixonar-te. E vais saber que não é isto o amor.

Amor não se coaduna com resignação, com lógica ou com respeito perante a negação desprovida de sentido do objeto desse amor.

Amor não se coaduna com a mera noção de que o ser que amamos possa estar apaixonado ou envolvido com outra pessoa.

Amor não se coaduna com calma.

Amor por vezes, não se coaduna com amor.

Um dia tu vais apaixonar-te. E vais descobrir que nunca isto foi amor.

O amor é completamente fodido. Tal como as pessoas.

O amor vive-se inconformado. Vive-se intenso.

Não é um ‘fogo que arde sem se ver’. Mas queima as entranhas.

O amor explode-nos no peito e dói de uma forma que nos faz querer sentir mais.

Isto que tu sentes não é amor.

Um dia tu vais apaixonar-te e não vais querer defender-te.

 Amor não se defende. Não se protege.

O amor é.

Corre nas veias e alimenta o corpo.

O amor intoxica e é egoísta.

Amor é querer mais, mas não é ser melhor.

Amor não pactua com hipocrisia. Amor é coração.

É brutalmente honesto e extraordinariamente violento.

Não se coaduna com o conceito de metade.

Amor é inteiro.

Amor não se desculpa com medos ou mágoas.

É entrega.

Amor é um salto de fé em ti que amas.

Não significa reciprocidade.

Amor é uma viagem alucinante.

É descoberta dos teus sentidos.

O amor é de quem ama. Não é de duas pessoas.

Um dia vais apaixonar-te. Isto não é amor.

Um dia vais apaixonar-te. Não vais ter medo de sentir.

Isto não é amor.

Dez anos

A melhor forma de esquecer um corpo que nos atormenta há demasiado tempo é ter sexo com ele.

Foram precisos dez anos até chegarmos àquele momento.

O encontro fora como de costume. Planeado à última hora, numa noite em que ambos já tínhamos compromissos. Não nos víamos talvez há um ano, embora trocássemos algumas mensagens de vez em quando.

Conhecemo-nos no liceu e sucumbimos a uma atração imediata.

À falta de melhor oportunidade ou local, os nossos encontros resumiam-se às traseiras do local de ensino que ambos frequentávamos. Beijos de língua e apalpões por todo o corpo. Hormonais, mas forçosamente controlados pelo ambiente à nossa volta.

Criou-se uma mística qualquer à nossa volta com o decorrer do tempo. Estabelecemos uma ligação relativamente forte sem nunca nos termos envolvido sexualmente e isso era estranho para qualquer um dos dois.

As vidas foram vividas separadamente, perdendo até o rasto um do outro de tempos a tempos.

Não me interessava particularmente o que acontecia na vida dele, tal como não lhe interessava o que se passava na minha.

Enquanto mulher estava mais facilmente sujeita a descontrolos emocionais que me poderiam levar a sentir a sua falta nos momentos mais difíceis, sem que isso tivesse chegado a impedir que vivesse os meus dias na plenitude.

Da parte dele, pudera sempre contar com poucas palavras. Ainda assim, todas as que disse foram repletas de significado.

Um dia, inevitavelmente, acordei apaixonada. Ouvi canções de amor, daquelas pirosas de cortar pulsos e todas as frases de filmes de sábado à tarde expressavam o sentido da minha vida.

Ilusões. Puras ilusões. Era isso aquele amor.

Não estávamos juntos há, talvez quatro anos, quando voltámos a cruzar-nos. Casual. Sem intenção. E com a maior das surpresas.

Nesse dia beijámo-nos e foi como se não tivesse passado tempo nenhum. Agradável. Ambos livres, sem compromissos e sem intenção de provocar qualquer novo encontro num futuro próximo. Dois adultos, beijando-se como adolescentes, apalpando-se como adolescentes, na esquina de uma rua escondida no meio de nada.

O tempo foi passando e nós também.

Enquanto mulher, emocional, foi ao seu pensamento que recorri sempre que me senti fragilizada. Enquanto mulher, racional, nunca peguei no telefone para lhe ligar ou enviar sms. Enquanto pessoa, nunca me preocupei em saber mais sobre o que poderia acontecer ou não acontecer de pouco ou muito interessante na vida dele. Enquanto ser humano, centrava-me exclusivamente em mim, nos meus interesses, e na minha pseudo-paixão por ele.

Dez anos. Foi o tempo que demorámos até chegar ali.

Próximo do fim de ano e com a certeza da necessidade de finalizar aquela história.

Como sempre, portámo-nos como adolescentes. Encontro discreto, sem necessidade aparente, porque não havia nada a esconder. Fim de noite.

Ele desconhecia a minha intenção. Julgava tratar-se de mais um encontro entre os dois. Nunca houve pressão para que houvesse mais do que o que sempre existira, muito embora, há muito fossemos dois adultos.

Ele só descobriu a minha intenção quando percebeu que lhe abria o fecho das calças. Fitou-me com espanto, e eu limitei-me a trincar-lhe o lóbulo da orelha.

Demorei dez anos a chegar àquele momento. Dez anos de expectativas, de tentativas e de ‘poderia ter sido’.

Demorei dez anos a desencantar-me.

Não trocaria nenhum segundo de beijo na boca para acelerar aquele processo. Ainda assim, perdeu-se a chama.

E eu posso seguir com a vida que é a minha, encerrando em definitivo uma primeira parte de mim.

A melhor forma de ultrapassar a vida com uma alma que nos atormenta é exorciza-la através dos corpos de cada um.

Perdoa, se te apaixonaste.

Short Story (ou o Nicholas Sparks que há dentro de mim)

1.

Ele ia casar. Sim, casar. E ela nem sabia que ele estava numa relação.

A maioria das raparigas que vê O Casamento do Meu Melhor Amigo, fica de coração partido quando o Dermot Mulroney escolhe a Cameron Diaz, e deixa a Julia Roberts sozinha com o amigo gay, no casamento.

Ela não era a maioria das raparigas. Projetava-se na personagem de Roberts, vendo-se a desempenhar o mesmo papel. Também ela deixaria passar o momento, e continuaria a amar em segredo, até perceber que esse amor não era mais que o hábito, a promessa, e uma rede de segurança.

Ele ia casar. Isto significava que a melhor parte dela ia perder-se. Ele deixaria de ser a promessa de um futuro, num dia no amanhã que teimava em não chegar, mas em que ambos sempre haviam acreditado. Ele ia transformar-se 'naquilo que podia ter sido'.

Ele ia casar. Cansara-se de esperar por ela. Desistira da tal promessa adiada por anos, desse dia que nunca chegava.

 

 

I

 

No dia em que se conheceram, estava a chover.

Ela tinha corrido a abrigar-se na biblioteca. Ele estava lá dentro, sentado num pequeno sofá, a ler um jornal, muito metido na sua vida. Ouviu a porta fechar com um estrondo, e levantou os olhos apenas para encarar aquela figura encharcada, envergonhada mas ainda assim divertida, com a comoção causada. Uma figura que pingava água pelo chão, enquanto os presentes a olhavam como se fosse um ser extraterrestre. 

Não conseguiu evitar um sorriso. Aquela menina assustada, e simultaneamente divertida com a excessiva atenção, cativara-o. Demorou-se a observá-la, enquanto despia o enorme casaco e o pendurava num cabide junto à porta. O tempo suficiente para que a sala regressasse à normalidade.

Pendurado o casaco, ela procurou em volta um lugar livre para sentar-se. Ao perceber que não conhecia ninguém, franziu o sobrolho, aborrecida. Mas ele continuava a observá-la. E inevitavelmente os seus olhares cruzaram-se. Ela corou e ele sorriu, envergonhado, por ter sido descoberto. Ela sorriu de volta. Ele apontou para a poltrona vazia ao seu lado, e ela aproximou-se. Tremia com frio, e ele percebeu. Sem pensar, despiu o casaco e ofereceu-lho. Com os olhos abertos de surpresa, aceitou-o e encheu-se de calor no momento em que o colocou sobre os ombros. O gesto de cavalheirismo desconcertara-a, e fitava agora aquele rapaz com um misto de confusão e curiosidade. Ele, divertido com a sua confusão, devolvia o olhar mais doce que ela alguma vez sentira.

Demoraram-se assim durante um tempo que não contou, até eventualmente perceberem que não tinham ainda trocado uma palavra.

Ela corou novamente, ao perceber que não agradeceu o gesto ao rapaz. Soltou uma leve gargalhada ao tomar consciência da sua patetice.

'Olá. Sou a Ana.'  - Estendeu a mão, num gesto tão sério e profissional, que parecia estar numa entrevista de emprego.

Foi vez de ele soltar uma pequena gargalhada.

'Olá. Eu sou o Pedro.' - Devolveu, com a expressão mais séria que conseguiu colocar, aceitando-lhe a mão, mas sem apertar.

Rasgaram-se os lábios num enorme sorriso.

'Obrigada pelo casaco!' - E enterrou-se no sofá de olhos fechados.

 

2.

Okay, ele ia mesmo casar. Não era uma brincadeira. Mas como é que as coisas tinham chegado até ali? Em que momento é que ele tinha conhecido alguém? Em que momento se tinha apaixonado e essa pessoa se tornara mais importante que ela? Em que momento é que ele tinha decidido que aquela relação era 'para a vida' e, sem a avisar, decidira quebrar a ligação entre os dois?

Sentiu o coração começar a bater mais forte, na mesma medida em que a respiração se descontrolava. Segurou-se à parede por sentir uma tontura forte. Sabia que se tratava de um pequeno ataque de ansiedade e que poderia conter-se se a mente se sobrepusesse à matéria.

'Merda!' - Soltou. Fora essa contenção emocional uma quota-parte de se encontrar ali. Sozinha. Sem ele. E ele ia casar. Com alguém. Sem medos. Sem contenções de amar.

Mas não podia ser. Não fazia sentido. Certamente seria uma brincadeira. Uma forma de lhe chamar a atenção. De fazê-la correr a beijá-lo. Sim. Só isso fazia sentido. Como raio poderia ele ir casar, quando não lhe conhecera nenhuma namorada nos últimos tempos?

Espera... Fazia quanto tempo, desde a última vez que estiveram juntos? Não conseguia lembrar-se. Estava demasiado nervosa. Não conseguia raciocinar.

Quando? Quando fora a última vez?

 

II

 

Estavam deitados, nus, por baixo de um fino lençol já esburacado por pequenas traças invisíveis. Ele fumava um cigarro, enquanto ela olhava o nada, de cabeça encostada no seu peito.

'Queres?' - Perguntou ele, oferecendo-lhe uma passa.

'Nah... - Fez um esgar de nojo – detesto o sabor que fica na boca!'

Ele afagou-lhe o cabelo.

'Isso quer dizer que não vais voltar a beijar-me hoje?' - Perguntou com um leve sorriso.

'Se calhar não!' - Atirou ela com o seu ar travesso, olhando-o nos olhos, para logo em seguida baixar a cabeça e lhe trincar com força o mamilo.

'Auuuuch!!!'

Ela afastou-se, rindo audivelmente, e ele logo a agarrou com a força de quem não quer largar, e apertou-a junto a si.

'Vamos ser sempre nós, sabes?' - Disse, com a certeza de quem vê muito além no futuro

Ela respondeu em forma de abraço, pressionando-se contra aquele corpo que se moldava na perfeição ao seu.

Ele respirou fundo.

'Ana...sabes que vamos ser sempre nós, certo?'

Ela deitou a língua de fora e respondeu-lhe.

'Um dia tu vais apaixonar-te por uma miúda normal. Mas hoje, ainda não é o dia!' - Encaixou-se mais no seu abraço.

Ele revirou os olhos.

'Depois desta alta manutenção, nunca serei capaz de contentar-me com menos.'

 

Quando abriu os olhos, já o sol se tinha posto há muito.

'Pedro, acorda.' - Sussurrou-lhe ao ouvido.

'Mmm...'

Abanou-o suavemente.

'Acorda, Pedro! Já é de noite...'

'Então, se é noite bem que podemos dormir até amanhã de manhã...' Resmungou ele entredentes. Tentou agarrá-la e fazê-la sossegar, mas sem sucesso.

Ana levantou-se, e começou a vestir-se. Contrariado, abriu os olhos e sentou-se na cama.

'Mas por que é que queres sempre ir embora? Estamos tão bem... - Beijou-lhe ao de leve a omoplata – aqui... - Voltou a beijá-la – isolados do mundo!' Continuava a beijá-la, enquanto procurava desapertar-lhe o soutien, acabado de vestir. Ela esgueirou-se dos braços dele, levantando-se da cama, antes que conseguisse ser bem sucedido.

'Pedro, leva-me a casa. Sabes que quero abraçar-te e não sair mais daqui, mas é hora de regressar ao mundo de verdade. Além disso, isto lá são lençóis que se apresentem a uma rapariga com quem se quer passar a noite?' Reclamou, apontando para um pequeno buraco no lençol.

'Tens compromissos?' Já adivinhava a resposta àquela pergunta, e sabia que não queria ouvi-la.

Ela fitou-o com ar culpado. Foi a vez de ele saltar da cama. Pousou-lhe o dedo sobre os lábios.

'Não devia ter dito nada. Eu sei. Então, não abanes a cabeça! Tinha saudades tuas, é isso. E quero sempre mais, quando estou contigo.'

Ela baixou a cabeça.

'Sabes que não sou boa nisto. Esta coisa que nós temos...não tem definição. Um dia Pedro... - Voltou a abanar a cabeça – noutra realidade.'

 

Ele soprou de descontentamento.

'Um dia...! Sabes quantos dias já passaram desde a primeira vez que disseste isso?'

Ela sorriu, trincando a ponta da língua, e recuperando o bom humor. Fez-lhe uma festa na cara.

'Tu és a minha pessoa perfeita, num timing horrivelmente errado! Ainda assim, a minha pessoa perfeita.'

Pedro reprimiu um sorriso.

Sabia disso. Sabia perfeitamente que aquela era uma situação muito particular, em que se viram envolvidos, sem possibilidade ou desejo de fuga. Sabia que jamais o seu envolvimento, tão intenso, lhes encheria as medidas da satisfação. Por isso talvez, sentia um pequeno aperto no peito sempre que a deixava. Por reprimir palavras e mascarar sentimentos, porque ela não lhe permitia dizer o que lhe ia na alma, por recear a si própria.

Queria acreditar que um dia ela perderia o medo, ou que ele ganharia coragem. Para já, contentava-se com os pedaços do que poderiam ser, e com o meio caminho que podiam percorrer. Adiava-se o todo, ficando-se pela metade. Adiavam-se aos dois.

 

Eram quase dez e meia quando o carro parou em frente à casa dela. Nenhum dos dois tinha realmente vontade de despedir-se. Permaneceram quietos, por instantes, adiando o momento. Começavam a dar-se conta da incerteza de não saber quando voltariam a poder partilhar aquele tempo, que lhes era tanto e tão essencial.

Continuavam quietos e em silêncio. Faziam sempre o mesmo quando chegava o momento da despedida. Pareciam dois miúdos nervosos com medo de dizer uma frase, por saberem que teria que terminar com 'Adeus'.

Sorriam, nervosos. Reconheciam o ridículo de tamanha dramatização. Ele quebrou o silêncio.

'Tens a certeza de que não queres ir jantar a qualquer lado?' Queria, a todo o custo, prolongar aqueles últimos momentos.

Ela relanceou as horas no rádio do carro, e revirou os olhos.

'Não posso. Já estou atrasada. Ainda nem tomei banho, e o João deve estar aí a chegar.' Piscou-lhe o olho. 'Tenho de livrar-me destas roupas impregnadas de suor e sexo!'

Ele soltou uma forte gargalhada. Puxou-a para si, e abraçou-a com força. Ela sentiu-se arrepiar.

'Somos demasiado disfuncionais para o nosso próprio bem, miúda.' Disse, conformado.

Ela soltou-se do seu abraço.

'Estás particularmente dramático desta vez, meu querido. O que é que se passa?'

Pedro sorriu e abanou a cabeça.

'Nada. Se calhar estou naquela altura do mês!'

Ela fez uma careta.

'Ah, ah, ah. Pensei que já tivéssemos conversado sobre a tua incapacidade patológica para fazer piadas!'

'A minha única incapacidade, a par com o facto de não conseguir obrigar-te a ficar comigo de forma permanente!' Atirou ele daquele jeito de quem brinca, dizendo a verdade.

A expressão dela endureceu.

'O que é se passa, Pedro?'

Ele respirou fundo, mas não respondeu. Ela insistiu, sem sucesso. Soprou exasperada. Detestava aquelas indiretas sem explicação ou justificação. Voltou a olhar para as horas. Tinha mesmo que sair dali. Ele tinha que ir-se embora. Não podia arriscar que João chegasse e desse de caras com os dois. Endireitou-se e encarou-o, olhos nos olhos.

'Tenho mesmo de ir embora. O João vai chegar a qualquer momento e não pode encontrar-nos aqui. Tu sabes. Ele não tem culpa que eu seja completamente desaparafusada...e tu também não.' Disse, como que a desculpar-se.

Ele voltou a respirar fundo, e devolveu o olhar. Estava desiludido consigo por se deixar levar pela tal falta de coragem. Quis dizer-lhe mais, mas como sempre, faltaram-lhe as palavras.

Beijou-a demoradamente.

'Somos os dois.' - Balbuciou, antes de a libertar.

Ela saiu, finalmente do carro, e fechou a porta atrás de si. Avançou para o portão, mas deteve-se, e voltou atrás. Bateu no vidro, fazendo-lhe sinal que o baixasse.

'Não é nada de especial. Eu vou continuar aqui.' Virou costas e foi embora.

Ele percebeu que se referia ao relacionamento que mantinha com João. E também percebeu que ela quis dar-lhe uma justificação. Quis assegurar-lhe que continuariam intocáveis, muito embora, cada vez mais, longe um do outro.

 

3. Cinco. Cinco anos era o tempo que os separava daquele último encontro. Era verdade o que diziam sobre o tempo voar. A relação dela terminara pouco depois e o trabalho levara-a a passar quase dois anos em Tóquio. O excesso de confiança naquele relacionamento disfuncional fizera-a negligenciar a pessoa com quem mantinha o próprio relacionamento. Falaram via Skype algumas vezes, nunca as suficientes. E desencontraram-se entre compromissos e fusos horários. Quando voltou para Portugal não fora visitá-lo. Porquê? Não se recordava. E aquela namorada, aquela noiva? De onde raio aparecera?

Ele ia casar.

 

São as pessoas que se colocam entre si, sabotando inconscientemente, as suas próprias relações.

Sabotou o seu amor.

Ele ia casar. E merecia ser feliz.

O dia em que conheci o meu pai

O meu pai fez parte das Forças Populares 25 de Abril (FP-25), uma organização de extrema esquerda que, nos dias de hoje, poucos conhecem ou ouviram sequer falar. Fizeram parte da História deste Portugal após o 25 de Abril de 1974, e fizeram parte da minha História. 

Ele e a minha mãe conheceram-se numa altura em que andava escondido na clandestinidade deste país, e na altura, até se apresentou com um nome que não era seu. Era casado, já com uma filha, na altura, mas apaixonaram-se. Naturalmente que veio a saber que ele fazia parte da organização e acabou tão 'cúmplice' quanto a mulher de um pseudo-terrorista pode ser. 

No início de 1987 ele foi preso e, numa rusga à casa dos dois, encontraram uma arma. Ela também foi presa. Desconhecia a existência da arma e nunca participara em nenhuma acção da organização. Libertaram-na e, naturalmente, começou a ser vigiada.

Em Agosto desse ano, numa tarde, ela foi encontrar-se com dois amigos que lhe traziam roupas para a bebé que ia nascer no mês seguinte. Convidaram-na para lanchar e ela, com a sua barriga de oito meses, aceitou.

Foram perseguidos por carros da polícia no meio de uma chuva de tiros, de um lado e outro. 

Ela foi atingida no pulso esquerdo que pousava sobre a barriga de oito meses, e pensou que a bebé já não nascia. 

Pediu para pararem o carro e caminhou até ao S. José, o hospital mais próximo. Durante todo o percurso foi perseguida por um agente da autoridade. No hospital, ele disse-lhe:

'A D. Angélica não foi presa da última vez, mas vai desta. Há um homem nosso morto e alguém tem de pagar.'

Ela não sabia que alguém tinha morrido.

Foi o caso Militão.

 

Eu nasci em Setembro, num poético e quente domingo, na MAC (Maternidade Alfredo da Costa). Tive direito a escolta policial, e quando regressei ao EPL (Estabelecimento Prisional de Lisboa) fiquei presa com a minha mãe por dois anos e meio. O meu pai também continuava preso.

No julgamento, a minha mãe acabou absolvida. Ficou provado que uma bala perdida da própria polícia matou o agente Militão.

 

Eles acabaram por separar-se. Ele envolveu-se com a advogada, mas não foi essa a causa da separação. Aconteceu. Estivemos juntos algumas vezes. Viemos a Lisboa passar um fim-de-semana, e recordo-me que andámos de barco e fomos ao Jardim Zoológico. Foi divertido.

Também me lembro de uma vez, em casa da minha avó, em que lhe puxei a cadeira quando ele ia sentar-se e estatelou-se no chão. Deve ter doído! 

Houve também aquele dia em que os dois discutiram porque eu queria um gelado depois de almoço e a minha mãe não deixou. Foi estúpido porque eles discutiram forte e feio, e no fim, foi ela que me levou ao café do Manuel João para me comprar o tal gelado. Aqueles da Avideza em forma de Pantera cor-de-rosa.

 

A última vez que estive com o meu pai foi no dia 6 de Setembro de 1993. Não estivemos juntos durante muito tempo, mas quando cheguei a casa, tinha mais presentes do alguma vez vira à minha espera. Estava lá a minha primeira bicicleta. Daquelas de menina e passeio. Cesto em frente e tudo.

Fiz seis anos nesse dia.

 

Sentir é uma coisa que custa, e dói um bocadinho, e vulnerabilidade não é o meu forte.

Durante muitos anos brinquei com a intenção de todos aqueles presentes. Dizia que eram a compensação pelos anos que estaria ausente.

Mas acabaram por esgotar-se e ausência continuou.

 

Próximo do final do ano de 2007, talvez em Outubro ou Novembro, eu acordava numa manhã de domingo com um telefonema. Tinha passado o fim-de-semana em Portalegre, onde estudava. Estava meio desorientada, ainda meio a dormir, e ouvi do outro lado da linha:

'Estou, filha? É o papá!'

 

Durante o ano seguinte telefonou-me com mais ou menos frequência. Até deixar de o fazer novamente.

Veio a Portugal há cerca de três anos e não se preocupou ou interessou por saber de mim. Não me procurou.

 

No Verão passado estive no Porto durante pouco mais de dois meses. Conheci tio, tias, primos e avó. Conheci até a mãe de uma nova irmã que entretanto ganhei. Foi nessa altura que ele voltou a contactar-me.

Falámos algumas vezes ao telefone e eu tentei, contrariando a menina que há em mim, não criar qualquer tipo de expectativas ou sequer acreditar no que ele pudesse dizer-me.

 

Na passada terça-feira recebi um telefonema. Disse-me que no dia seguinte chegaria a Lisboa e queria estar comigo. Disse-me que desembarcava pelas 16h50 e assim que estivesse fora do avião ia comprar um telemóvel e ligar-me.

Não acreditei, apesar de querer com todas as minhas forças acreditar.

Durante a tarde vi as horas a passar e nada. Nada. E o meu coração cheio de nada.

 

Dia 5 de Março.

Eram 18h30 quando o meu telefone tocou.

Comparo-me com uma criança a quem alguém dá um chupa chupa que estava a pedir há uma eternidade.

Corri para o Metro, para chegar ao Rossio.

Encontrámos-nos em frente ao Teatro D. Maria II.

Sentámos-nos a uma mesa de café a conversar.

Eu e o meu sotaque alentejano, e ele com aquele sotaque cerrado do norte.

 

Falámos sobre política.

Ele deixou-me no Metro da Baixa e seguiu para Sta. Apolónia, a apanhar o Alfa para o Porto.

Prometeu ligar-me para nos encontrarmos novamente antes de voltar a Luanda.

 

Sentir é uma coisa que custa, e dói um bocadinho, e vulnerabilidade não é o meu forte.

 

O Castelo

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