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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

A falta que faz.

Eu não gosto de palavras por dizer.

Eu não troco um olhar profundo por uma boa conversa. Gosto das palavras ditas, das frases de realidade crua e das duras e valentes chapadas que chegam pela mão das verdades.

Não me venham com os olhos e a janela da alma, com o que poderia ter sido ou com aquilo que nós perdemos porque achámos que era mais bonito deixar no ar.

Isso são tretas e outro sinónimo para medo, ou receio, ou o que lhe queiram chamar. A vida não é o sonho do que poderia ter sido, é a escolha que podemos e queremos mesmo viver. E as palavras existem para verbalizar o querer. Existem para ser assertivas e por vezes, quando tem de ser, imperativas.

São os olhos que mentem, as palavras não. E numa conversa há sempre qualquer coisa a ser dito, os cobardes é que escolhem calar-se. Isso é triste. Ou infeliz. Ou algo deste género. 

Chapadas de honestidade, sempre. Sem sombra de dúvida. Sim, disse chapadas outra vez. 

O silêncio é muito possivelmente o maior expoente do egoísmo. 

É fácil não dizer sim ou não e permitir que alguém ou algo fique preso nessa cobardia. É muito fácil e extraordinariamente tentador. 

Peito aberto. 

Ou como se diz na sabedoria popular 'pão, pão, queijo, queijo'

Breve desabafo.

Das últimas coisas que aprendemos no tempo com fim das relações, amizades, amores, trabalho, vizinhos, família, é a construir uma barreira defensiva que possa proteger-nos do tempo que vier a seguir. Extraordinariamente, há alturas na vida em que não parecemos formatados para lidar com a dor. E o mais extraordinário é que o ser humano é isso mesmo: pura sensação. Dor. A dor que se sente e a dor que se conhece que nos permite reconhecer quando não dói.

Gostava de saber escrever a mais lamechas e bonita carta de amor. Daquelas mesmo de fazer chorar as pedras da calçada. Aquela tão forte quanto as chuvas intensas que inundaram meia cidade de Lisboa no último dia.

Eu não sei escrever cartas de amor. E o engraçado é que já me acusaram de ser demasiado lamechas em alguns textos que partilho neste espaço.

Cedo aprendemos que o fogo queima e mesmo assim gostamos de observá-lo com um fascínio inquietante de desejo de tocar-lhe um pouco só.

Estas linhas não fazem qualquer sentido.

Há tempos, parece há um milhão de dias, eu decidi que o bom e o mau existem para ser sentidos. Decidi que o peito entrega-se aberto e a exposição da alma é o único caminho que faz sentido percorrer.

Fascínio doentio pelo fogo.

Parece que foi há um milhão de dias porque já não é. Não voltará a ser.

Eu não acredito em pessoas. Elas fascinam-me mas nunca voltarei a acreditar nelas.

Eu não confio em pessoas. Não posso confiar no preto e no branco quando eu vejo as outras cores.

Barreira reerguida.

 

Meus queridos, estas linhas são nada mais do que um desabafo desconexo. Não me levem demasiado a sério, porque eu já o faço.

Morte violenta ou a perda repentina

Há muita coisa aqui dentro desta cabeça que não sabe como transitar para o exterior.

A minha avó morreu de repente, sem que os esperássemos. Dois anos antes, o Paulo morreu assim também. Muitos anos antes, menos do que foram provavelmente, o meu tio também. E antes foi o meu avô. Sempre de repente. Sem que esperássemos. Sem que estivéssemos preparados. Sem nos passar pela cabeça que ia acontecer tão breve.

Nunca se está preparado para a perda de alguém que faz parte de nós, é certo. Mas pus-me a pensar. O luto é um processo demorado, doloroso, de aceitação. É um processo que pode ter início quando o seu objecto ainda respira, certo?

Como é estar do lado daqueles que têm tempo para se despedir? Aqueles que vão conseguir dizer o 'adeus' final, que vão poder abraçar pela última vez quem amam, ainda com vida.

Passamos todos os dias à procura de tempo enquanto fugimos dos minutos e das horas que teimam em não passar. Queremos chegar sempre a algum lado, estar com alguém, sentir qualquer coisa. Criámos o tempo e é ele que nos consome.

Um dia recebemos más notícias e a correria deixa de fazer sentido. Paramos de fugir do tempo e queremos consumi-lo, respirá-lo, congelá-lo.

Quando a minha avó morreu eu não percebi como o tempo me trouxe ali. Quando o Paulo morreu eu não percebi como as horas separaram a vida da morte.

Mas e se eu soubesse? Não digo saber o momento exacto em que o coração pára e a respiração deixa de existir. Mas se eu soubesse que ia acontecer. Naquele prazo, naquela janela temporal, ia acontecer.

Pus-me a pensar naqueles que numa consulta médica descobrem que a inevitabilidade da morte lhes vai chegar a prazo. E nos seus familiares e amigos que nesse momento, perdem parte do seu mundo e, inconscientemente, começam nesse momento o tal processo de luto.

Será mais fácil, de alguma forma, para essas pessoas?

Não estou a falar da dor insuportável ou da revolta que nos atinge. Será que é mais fácil a última fase, a aceitação?

Quando penso na minha avó morta ou no Paulo, não sinto que tenha ficado algo por dizer. Sinto falta, uma falta que me consome, das pessoas com quem eu partilhava a vida. Com quem partilhava o sol. Sinto que queria mais. Mais de cada um deles. Mais tempo.

Não sei. Se tivesse sido uma doença sem cura, de alguma forma, penso que talvez tivesse tido mais tempo para os aproveitar. Por saber o fim. E talvez quando o fim chegasse, estivesse melhor preparada.

Talvez se o prazo de validade nos estivesse gravado na pele, já tivéssemos aprendido a aproveitar cada ser que partilha a nossa vida e, igualmente importante, a nossa própria vida.

O Castelo

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