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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Wind of change.

Naquele dia em que fechei a porta de casa percebi que fechava também a porta de uma história. De uma vida. A vida sonhada, a vida conformista dos dois.

Eu soube reconhecer aquele momento. Soube reconhecê-lo por não ser uma sensação de primeira vez.

Em 2007, primeiros meses do ano talvez. Estávamos em casa dele, recordo-me bem das paredes revestidas a cortiça. Um quarto de dois irmãos demasiado pequeno para dois adultos. A estante com os Dvds presa na parede lateral onde a cama se encostava. Estávamos a fazer amor e a música que passava no rádio era dos Pearl Jam, Last Kiss. Por algum motivo os meus olhos encheram-se de lágrimas. Ele não percebeu, eu não deixei que percebesse. E eu descobri que era o fim. Todos dias que se seguissem seria uma miserável tentativa de esconder o óbvio. Uma negação veemente de silenciar palavras que, silenciadas, não fariam mais que reflectir-se em gestos e acções que acabariam por degradar um aos olhos do outro. Sempre o medo das palavras. Da palavra fim.

Quanto tempo demoramos a perceber que as palavras vão doer muito menos do que o silêncio provocador da tentativa frustrada de mais uma tentativa?

Quanto tempo demoramos a perceber que um ponto final significa apenas que a frase terminou? E quanto tempo demoramos a perceber que reticência é o silêncio obscuro que teima em persistir, em insistir, quando o que resta apenas é o medo de escrever a próxima frase a solo.

Quanto tempo demoramos a aceitar as nossas fraquezas, a reconhecer que precisamos de nós para podermos um dia dar de nós?

Hoje acordei e estava a tremer. O coração acelerado.

Sei que quero ser o melhor de mim por mim e para mim. Para que não sobrem culpas ou desculpas.

Não é fácil de explicar e é difícil compreender. Para os outros. Só que eu não tenho que os fazer compreender. Cada um de nós é um projecto, um processo a decorrer enquanto o ar nos entrar nos pulmões.

Se eu perder menos tempo a explicar-me ganho mais tempo para descobrir-me. Para trabalhar no meu projecto. Em mim.

Se o meu projecto resultar, quando eu resultar, a minha vida torna-se realmente minha. Aí, nesse dia, eu posso cruzá-la, partilhá-la, com outros projectos donos de si, e desfrutar. Tranquila, ou não tão tranquila. Mas em paz. Segura. Certa de que sou eu. Sem contenções. Sem medo do olhar sombrio da rapariga perdida do outro lado do espelho.

Sim. Sem contenções.

 

Todos os dias, um pouco mais. Olhos que se abrem aos poucos.

 

Coração.

 

O problema das relações é que elas não começam nem terminam simultaneamente para as pessoas envolvidas.

Não há duas pessoas que caem de amores uma pela outra na mesma hora ou no mesmo instante. E não há duas pessoas que se desapaixonem ou desencontrem uma da outra no mesmo momento. Quando estamos de longe, mais longe, talvez nos seja possível identificar o momento exacto em que a chama se apagou. Sim, porque a chama apaga-se de um momento para o outro. Enfraquece ao longo dos dias, das horas dos minutos, mas apaga-se de um momento para o outro. Tal qual como se acende de um momento para o outro. Há pura e simplesmente aqueles instantes em que acontece o tal clique. E, uma vez mais, talvez de longe, quando já se está um pouco mais longe no tempo, talvez seja possível identificar esse momento. O segundo em que tudo muda.

A mudança é inevitável e quando acontece, podemos até contrariá-la, escondê-la, camuflá-la, fazer trinta por uma linha, que de nada vai servir. É assim mesmo. Inevitável, crua e paciente. A mudança que é em si própria mutação e que espera, pacientemente, pela nossa aceitação. A aceitação do clique.

Onde é que terminam os subterfúgios? A fuga e o reconhecimento do tal inevitável?

É lá, no longe. Na longa distância de dias percorridos de mágoa, de aperto, de perguntas iguais com respostas diferentes respondidas com o coração de cada dia.

Lá no longe, o clique, a descoberta, a percepção do óbvio e aceitação da verdade do sentimento. Da verdade de nós próprios.

O longe é percorrido por cada um individualmente, a seu tempo, sem pressas consoante a necessidade de libertação que existir dentro de si. Não há sintonia no caminho e haverá sempre quem chegue primeiro. Por horas, dias, semanas, meses, anos. Há sempre um que chega primeiro.

O que experienciamos é semelhante quer se trate de amor ou desamor. Ansiedade, medo, incerteza, pressa. Pressa. De que o outro finde a sua jornada.

A vida só começa no principio e no fim.

 

 

 

'I can feel the heat rising
Everything is on fire
Today's a painful reminder of why
We can only get brighter
The further you put it behind ya
And right now I'm on the inside
Looking out (...)' 

 

 

 

 

O Castelo

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