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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Pais envenenados

Este país não é para novos. – Já toda a gente sabe.
Fazendo parte desta geração, eu sei que não posso 'meter-me' em grandes aventuras. Já cresci dentro desta crise. Cresci no coração de tudo isto. Eu sei que não posso, para já, fazer determinadas escolhas ou optar por determinados caminhos, porque, como se diz na minha família, 'a vida não está para isso'. Eu sei, por exemplo, que se o meu instinto maternal despertar, não posso ceder à sua vontade. Eu sei que uma criança é uma despesa em crescendo. Uma despesa incomportável para um casal a sobreviver às custas de um salário mínimo, sem regalias e casa própria. Felizmente, ao entrar nesta vida de gente crescida e com responsabilidades, eu já sabia disto, e não fui apanhada de surpresa.
Infelizmente, esta crise não me caçou só a mim e aos outros jovens deste país que, como eu, pensam duas vezes antes de ceder ao capricho que é a maternidade/paternidade. Esta crise atingiu forte e feio a faixa etária seguinte. Aquele nicho de população cuja vida estava já organizada, orientada profissionalmente, e com um futuro bem definido. Famílias de contas bem feitas e planos perfeitamente delineados para pais e filhos. A epidemia de desemprego espalhou-se, e continua a espalhar-se por esta geração. Minando silenciosamente, e destruindo cirurgicamente, centenas de famílias deste país. E esta geração, anterior à nossa, foi surpreendida de forma estrondosa, pela explosão da situação que atravessamos. Uma geração para quem a idade é inimiga. Uma geração de adultos a quem ninguém avisou que tudo isto ia acontecer. E, ao contrário de nós, 'Geração à rasca', para eles não existe luz ao fundo do túnel. Porque são demasiado jovens para se reformar, e demasiado velhos para trabalhar. E também, ao contrário de nós, têm filhos para sustentar aliados a contas que se acumulam todos os dias.

Eu não imagino o desespero de um pai ao perceber que não tem dinheiro suficiente para pôr comida na mesa dos filhos. Não imagino o desespero de um pai ao ver a electricidade e água de sua casa, serem cortadas por falta de pagamento, privando os seus filhos de aquecimento e banho quente. Não imagino a vergonha, a sensação de falhanço, perante a incapacidade sustentar o seu filho. Não imagino a dor crescente dentro de qualquer progenitor neste tipo de situação.

Acredito que a maior fraqueza de um ser humano, é outro ser igual a si. A maior fraqueza de um pai, é o seu filho, que nasceu a partir de si. Sentir o sofrimento de um filho, mata um pouco de cada pai. Ao nos cruzarmos com situações extremas que nos põem à prova, nem todos reagimos da mesma forma. Alguns de nós, sofrem de perturbações psicológicas graves, que podem nunca se ter manifestado por não ter existido um 'potenciador' suficientemente intenso. Alguns de nós, sucumbem quando confrontados com as dificuldades.

Acredito que o desespero aliado a uma condição mental instável, possa levar a um expoente de insanidade tal, que culmine no assassinato de um filho pelo seu progenitor. Também acredito que, nesse momento de loucura, o pai creia que o seu acto terrível, seja um acto de amor e salvação da sua vida e da sua vítima.

Em 1970, um casal que atravessava graves dificuldades financeiras, atirou-se ao rio Tejo com o seu filho.
A mãe de Oeiras envenenou os dois filhos. Especula-se que viviam numa casa sem água e luz. E especula-se sobre tudo o que se passava na vida daquela família monoparental. Ela envenenou os filhos, e matou-se depois. Mas ela não os enforcou, não lhes deu um tiro, não os matou à paulada...procurou uma morte que lhe pareceu ser a que os faria partir com menos sofrimento. Ela envenenou-os.
Na realidade, ela fez o bolo. O veneno, há muito que vinha sendo espalhado pelo Governo com as suas medidas de austeridade, e por esta economia de preços que escalam novos máximos todos os dias. Este país tem tanta responsabilidade na sua morte, e na morte de tantos outros que desconhecemos, quanto a mãe que os trouxe ao mundo.

Infelizmente, este país vai continuar a matar pais e filhos por tempo indeterminado.
É esta geração que vai sofrer as mais graves consequências, eles são os verdadeiros 'enrascados'. Quando tudo isto passar, eu e todos os jovens deste país, continuaremos a ser jovens. Continuaremos a ter diplomas. Estaremos preparados para iniciar verdadeiramente as nossas vidas. Para nós, esta crise é um percalço, um obstáculo que nos colocou em suspenso mas que vamos ultrapassar para viver dias melhores. Para eles, para muitos, vai ser o fim da linha. Não vão conseguir recuperar, arranjar trabalho e proporcionar qualidade de vida às suas famílias. Muitos deles, vão perder as suas famílias e perder-se de si mesmos.

Então, todos nós, que somos a juventude de um Portugal que há-de reerguer-se, devemos agradecer aos líderes políticos que nos governam.
Obrigada pela castração forçada, à saída da faculdade. Afinal de contas, tinham mesmo os nossos melhores interesses em mente.

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