Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Sara, está despedida!

Eu não sabia o que era isto do desemprego. Não tinha uma ideia real do que significa estar desempregado. Confesso até que, a determinada altura, acreditava piamente que existiam mais pessoas a não querer trabalhar, do que pessoas realmente desempregadas. Eu não tinha conhecimento da realidade da procura, do desespero de não encontrar. Desconhecia o sentimento de euforia ao abrir a caixa de e-mail ou ao receber um telefonema de um número desconhecido. Desconhecia a desilusão por uma entrevista não ter corrido bem. Não fazia ideia do que era aquele sentimento de encontrar a oferta perfeita, submeter uma candidatura e não ter resposta do outro lado. Para mim, este conceito de desemprego estava demasiado escondido entre um nevoeiro, tão denso, que me parecia nem pertencer a esta realidade.
Recordo-me que simpatizava, comovia-me ao saber das histórias das gentes que iam perdendo os seus empregos todos os dias. Mas não pensava sequer duas vezes, não imaginava tão pouco, como seria aquele momento em que te chamam a uma sala e te dizem que o teu trabalho deixou de ser necessário por este ou aquele motivo. Nunca me perguntei qual seria a primeira coisa a passar pela cabeça de quem está a ser despedido. Nunca parei para considerar o que sentiriam aquelas pessoas no momento em que lhes era roubado o sustento.

Acordei. Respirei fundo e saltei da cama. Como em todas a manhãs. Duche, roupa, 5 minutos de ronha e sair porta fora. Mais um dia de trabalho igual a tantos outros. Durante o dia inteiro senti o estômago às voltas, um mau estar constante. Tudo se processava com naturalidade à minha volta. Nada distinguia aquele dia, de outros tantos anteriores.
Foi ao fim do dia, a cerca de 15 minutos da minha hora de sair que me chamaram, juntamente com a minha chefe, a uma sala para uma reunião com o representante da empresa no local.
Senti o mundo cair-me em cima. Senti raiva. Senti ódio. Senti o tal desespero ao pensar nas minhas responsabilidades financeiras. Dizer que não reagi bem é um understatement. Tive um ataque de ansiedade e uma estranha out of body experience enquanto tudo acontecia. Toda a cena era no mínimo ridícula: Gritava entre soluços se o meu trabalho não valia de nada, enquanto me respondiam um redondo 'NÃO', e me gritavam de volta, vezes sem conta, 'A menina Sara tem de se acalmar!'. Que cena tão estúpida. De 'fora de mim', ria às gargalhadas perante toda a situação. Em que mundo é que gritar a uma pessoa que está a ter um ataque de ansiedade, que tem de se acalmar, é solução? Na sala estavam três pessoas, além de mim. A minha chefe, o representante da empresa, e uma coordenadora que eu nunca antes tinha visto. A primeira foi, tal como em todo o tempo que trabalhámos juntas, uma perfeita inútil. De cabeça baixa o tempo inteiro, escapulindo-se na primeira oportunidade. Quanto aos outros dois, dividiram-se entre bad cop e good cop, respectivamente.

'Sara, veja esta situação como uma oportunidade. Que idade tem? 25 anos? Ainda é muito nova, tem muito pela frente.'

'Tem de assinar a carta. Vá lá, assine! E acalme-se! Tem de despachar-se! Preciso desta sala para uma reunião!'

Tenho lido muitos depoimentos, visto muitas reportagens, entrevistas, etc., de pessoas que perdem os seus empregos pelas mais variadas razões. Geralmente gente mais velha, mais 'batida', que não se deixa quebrar facilmente e consegue manter a postura quando necessário. Admiro essas pessoas. Para mim foi um choque. Foi a primeira vez que aconteceu e não soube como reagir. Senti-me, e fui, humilhada pela pessoa que me disse aquelas duas palavras. Senti-me impotente por não poder lutar, responder à altura de tudo o que me foi dito. Ouvi muitas palavras de provocação, fui pressionada ao meu limite e não consegui reagir. Não parava de pensar que se ficasse calada, se fosse bem educada, talvez houvesse forma de alterar a decisão. Fui ingénua até ao último segundo.

Quando saí daquela sala, encontrei a vergonha. Foi nesse momento que descobri o estigma do desempregado. Os olhares furtivos, as conversas a meia voz, o sentimento de pena. De repente, todos os teus colegas começam a olhar-te como se tivesses uma doença rara e estivesses em fase terminal. Sentem uma necessidade enorme de confortar-te com palavras de incentivo, frases feitas que julgam eles, vão fazer-te sentir melhor. Encorajar-te todos os dias, em todos os momentos possíveis. E, ai de ti, que caias na asneira de sorrir, aparecer um dia bem disposto, com outro tema de conversa que não seja o infame despedimento. Livra-te de fazer piadas que terminem com a frase 'O que é que vão fazer? Despedir-me?', porque isso só pode significar que não estás bem da cabeça. Sim, para os teus colegas é mais ou menos como o Natal, uma oportunidade de se sentirem solidários, sem arredondar é certo, mas com palavras que consideram mágicas e que vão melhorar o teu dia.

Eu não sou, nem fui depois de ser despedida, uma desempregada dramática. Não tenho paciência para o choque, para o choramingar, para consolar colegas que continuam com trabalho, por EU ter sido despedida. O meu momento dramático aconteceu naquela sala. Depois saí, pensei e estranhamente senti alívio. Por poder desempenhar o papel de mim mesma, no restante tempo que por ali fiquei. Se há dizer popular que sigo à risca é 'não chorar sobre leite derramado'.

Depois de mentalizar-me que chegava ao fim uma etapa da minha vida, tratei de reagrupar-me. Interiormente, antes de tudo. Tratei de recordar-me da minha pessoa, dos meus sonhos, pelos quais nunca lutei realmente, pelos meus objectivos. Tratei de traçar um primeiro plano para me ajudar na conquista de um primeiro objectivo. Tratei de perder o medo, por descobrir que já não há nada a perder. Sei onde estou, sei onde quero chegar, e sei qual o primeiro passo que tenho que dar.

Não cheguei a esta conclusão no momento em que saí da sala. Passaram-se dias, semanas que pareceram intermináveis. Afastei-me do mundo para evitar que me toldassem o raciocínio. Doeu-me alma. Quis esconder-me de todos e de mim. Voltei a escrever. Convenci-me de que o difícil é ultrapassável. Sobretudo quando não há nada que nos prenda. Voltei a acreditar em mim. E, embora não pareça a muitos, embora julguem que estou doida ou a esquecer esta economia, nunca vi o meu futuro com tanta clareza. O meu futuro é lutar. Lutar todos os dias, para continuar a fazer o que mais me dá prazer. Lutar todos os dias para continuar a respirar sentimentos e a viver palavras.

O desemprego não é uma oportunidade. Mas perder o emprego dá-nos tempo. O tempo é precioso, e a seres humanos egoístas, como eu, permite-nos descobrir coisas fantásticas dentro de nós.

O desemprego não é uma oportunidade. Mas eu posso ser. Nós somos oportunidade.

4 comentários

Comentar post

O Castelo

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D