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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

'Eu hei-de vir sempre atrás de ti.'

Uma série de acontecimentos espalhados pelo tempo, trouxera-os àquele momento. De alguma forma, sem que o procurassem, o universo parecia conspirar para que assim fosse, de tempos a tempos.

Fizeram-se amigos. Brincaram. Conversaram. Fumaram o primeiro cigarro. Sem nunca se olharem com olhos de ver.
Quando ela conheceu o primeiro namorado, afastaram-se. Por razão nenhuma em particular. Aconteceu naturalmente.
Um dia beijaram-se. Foi depois de um desgosto de amor. Algo mudou. Ninguém mais disse uma palavra.
Cresceram separados. Nada mais que um sorriso cordial ao passarem um pelo outro na rua, ou um aceno no café.
Um dia ele estava triste e precisou dela. Beijaram-se. Foi depois de um desgosto de amor. Ninguém mais disse uma palavra.

E, assim, nasceu um padrão.

Passavam-se meses sem que trocassem uma palavra, semanas sem se ver. Mas quando o coração se partia, em mil bocadinhos, buscavam-se com a urgência típica das crianças que estão a crescer.
Um dia ela apaixonou-se. Pela única pessoa que conhecia as suas histórias. Pela pessoa em quem ele mais confiava. Nesse dia, algo mudou.
Ele terminou a escola. Iria para a universidade. Embora não falassem, ambos sabiam o que isso significava. A última noite passaram-na juntos. Passearam, conversaram, festejaram e beberam copos, como os dois velhos amigos que se sentiam.
Beijaram-se. Não havia corações partidos, nem desgostos de amor para confortar. Aquele beijo foi um momento dos dois.
De repente, ele vivia a mais de cem quilómetros de distância e ambos queriam mais. Sem rótulos. Casuais, mas exclusivos. E resultou, durante algum tempo. Não fosse ela uma rapariga comum, com a paranóia de todas as meninas comuns, e a necessidade de analisar e discutir todas as pequenas coisas, até à exaustão. Não fosse ele o rapaz, menos comum, cujo melhor amigo se chamava silêncio, sem resposta para todas as questões e necessidades daquela menina.
Ela cansou-se de esperar pelas palavras. Descobriu quem falasse, quem lhe cantasse a cantiga de bandido, que lhe parecia tão importante de ouvir. Decidiu-se calar-se também, esquecendo-se porém, de lhe avisar o motivo.

Passou-se mais de um ano.

Um dia encontraram-se numa festa. Ele agarrou-lhe a mão e insistiu em levá-la a casa. Uma semana mais tarde saíram para um café. Ela voltou a falar, voltou a procurar uma reacção nele. Ele, fiel a si mesmo, nada disse. Quando ela quis sair, agarrou-lhe a mão com a força do mundo. Sem uma palavra. Mesmo assim ela não entendeu. Afastaram-se mais um pouco.
Um dia ela tinha o coração partido. Ele percebeu e aproximou-se. Tentaram novamente. O coração voltou a sarar e afastaram-se.
Foi a vez dela de partir. Não passaram a última noite juntos. Quiseram crescer. Afastar-se da necessidade um do outro, tornar-se independentes de si mesmos.
Por já não serem crianças, perderam as desculpas para continuar a magoar-se estupidamente. Por já não serem crianças, perderam a desculpa para tanta imaturidade, por não aceitarem os seus feitios. Concordaram, silenciosamente, na libertação de cada um sem que o outro voltasse a persegui-lo. Chegara a altura de curar desgostos de amor separadamente.

Aconteceu um acaso. Deram por si na mesma reunião de velhos amigos. Viram-se surpreendidos ao perceber o passar do tempo, desde o último 'olá'. Viram-se surpreendidos pelo sorriso rasgado que não conseguiram disfarçar. Viram-se surpreendidos por se verem os mesmos miúdos do início daquela amizade. E ainda assim, não trocaram uma palavra.
Durante um tempo que pareceu interminável, não se falaram. Procuraram evitar-se, por falta de palavras. Pelo pouco significado que qualquer frase pudesse ter.

Era tarde quando se encontraram na varanda. Ela tinha saído para fumar um cigarro, e ele surgiu ao seu lado, quase sem que se apercebesse. Ambos sorriram. Ela abanou a cabeça. Ele pegou-lhe na mão, e disse baixinho:
'Eu vou vir sempre atrás de ti.'
Aproximou-se para a beijar.
Chegara o momento.
E subitamente, ela percebeu. E afastou-se. Percebeu que, por mais que realmente desejasse, não queria aquele beijo.
E foi como se, pela primeira vez desde que se conheceram, o mundo tivesse finalmente avançado e pudesse ver-se, e a ele também, pelos dois adultos que se tornaram.

Abraçou-o com a força do universo, por saber que era, por fim, a última vez. A falta daquelas palavras fizera desaparecer o tempo dos dois, e hoje esse tempo era uma memória.

As memórias não existem para ser vividas.

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