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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Maria

Fragmentos de memórias. Partículas de pensamentos.
Naquele dia escolheu caminhar sozinha até ao cemitério. Havia meses desde que ali passara pela última vez. Corroía-lhe o ser aquele sentimento de perda que teimava em não transformar-se em saudade.

Ela cresceu com a avó porque a mãe trabalhava três vezes mais para ter mil escudos no final do mês. Durante anos a fio, a sua coisa preferida no mundo era dormir naquela casa, no meio do barulho da vila, aquecida pelos lençóis gelados que nunca eram de flanela, mas com o conforto de quem lhe queria bem.

Nunca foi um exemplo de neta. Irrequieta, respondona, gaiata cheia de malandrice. Embirrante sempre que era contrariada, nunca ganhava as brigas e depressa apanhava um par de nalgadas. Chegou a fugir-lhe numa ocasião, mas quando ia à esquina a consciência dos seus cinco anos mandou-a parar. A avó logo a alcançou de chinela na mão, e o caminho de regresso a casa foi um festival de choramingar por entre palmadas.

No tempo em que era Maria! A avó Maria.

Numa vila de festas no ano inteiro, foi sempre a sua companhia. Era tão feliz com aquela avó que a levava aos bailes e deixava correr livre, na galdeirice com os meninos da sua idade. E dançavam as duas, conversavam sobre o nada e ensinava-lhe as histórias da vida. Ensinava-lhe a sua vida. E escutava-a fascinada. Ouvindo e memorizando cada detalhe. Admirando aquela mulher. Respeitando-a, muito embora testasse os seus limites. Admirava a consideração e, até mesmo, alguma reverência com que todos a tratavam. Não a surpreendia, apenas admirava. Sabia que era uma mulher forte, sem calos que pudessem ser pisados, e sem voz que se sobrepusesse à sua.

Apesar de tudo, não se deslumbrava com a avó. Era uma admiração natural. Também lhe reconhecia o feitio difícil, defeito genético parecia-lhe, por passar de geração em geração. Reconhecia-lhe os defeitos. Ou começou a reconhecê-los mais tarde, possivelmente por se rever a si própria em alguns deles. A capacidade de distorcer a verdade a seu favor, a perícia na chantagem emocional, a manipulação do seu clã.

Nada disso interessava. Nunca foi importante. O importante sempre foi aquela relação especial entre as duas. O importante sempre foram os seus ensinamentos. A forma como lhe cultivou o gosto pela leitura, como a ensinava gostar da escola e de aprender cada vez mais.

E a cada último sábado, de todos os meses, quando iam ao mercado da vila e ela sempre lhe comprava um pano da loiça, para acrescentar ao enxoval.

No tempo em que era Maria! A avó Maria.

Com o tempo foi-se o tempo que partilhavam. As confidências que confidenciavam. Com o tempo, foi-se o tempo de dormir nos lençóis frios aquecidos pelo conforto do amor que partilhavam.

Estava longe quando chegou o primeiro susto. Quando finalmente a visitou, não a reconheceu. Viu-a definhar pelos constantes problemas de saúde e pela preguiça de esforçar-se para melhorar. Sempre que se despedia, quebrava-se um bocadinho de si. Sentia o coração apertadinho, com o medo, o medo enorme de que fosse a última vez.

Sorria sempre, nas horas da visita. Levava-a a passear aos fins-de-semana de sol. Saiam com a cadeira de rodas e percorriam as ruas durante duas horas, antes de voltarem para jantar. E a cada metro que avançavam, logo tinham que parar tal a popularidade daquela avó que todos queriam cumprimentar.

'Então Mariazinha, como estás?' - E como a avó ficava feliz com todo aquele interesse! Mais não fosse, nos dias em que estava mais em baixo em que aproveitava para queixar-se um bocadinho.

Depois, chegava domingo, a neta despedia-se, respirando fundo para controlar a lágrima.

'Avó, tens de por-te bem. Quando eu casar vais ser a menina das alianças! Toda vestida de cor-de-rosa com muitos folhos, e a cadeira bem decorada.'

Foi de madrugada que o telemóvel tocou. Tal como nos guiões dos filmes de quinta categoria.
Veio-lhe há memória o último fim-de-semana em que estiveram juntas, quinze dias antes. Por razão nenhuma, dera-lhe de jantar como se faz aos bebés.

'Quando eu era pequena, tu davas-me comida à boca. Agora é esse o meu papel. Aproveita!' - A avó sorriu envergonhada, e ela decidiu que tinha de fazer aquilo mais vezes.

Não fez.

Fragmentos de memórias. Partículas de pensamentos.
Estava sentada junto à campa e não conseguia sorrir. Recordações não são vida. E na morte, perde-se parte de nós.

O tempo em que deixou de ser Maria. A minha avó Maria.

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