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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Bullying, ou a grande descoberta do século XXI

Bullying é um comportamento consciente, intencional, deliberado, hostil e repetido, de uma ou mais pessoas, cuja intenção é ferir outros.

No meu tempo não havia bullying.
Havia miúdos que aterrorizavam miúdos, que por sua vez, aterrorizavam outros miúdos e transformavam a arte de aterrorizar, numa perfeita bola de neve. Todos gozavam e todos eram gozados.
A tudo isto ninguém prestava atenção ou dava muita importância.

Quando somos crianças, rodeadas por outras crianças, é fácil encontrar algo em alguém, com que 'implicar'.
Sabemos que não há ser mais doce e cruel do que uma pequena amostra de vida infantil. É próprio da idade não reconhecer o alcance das palavras gritadas, ou a gravidade das atitudes tomadas.

Enquanto eu crescia, a internet era novidade, o acesso limitado e as redes sociais, desconhecidas. Era em tempo de escola, nos intervalos das aulas, ou durante algumas delas, que se chamavam os nomes feios. Muito feios!
Mas depois as aulas terminavam, cada um seguia o seu caminho e toda a gente podia descansar. Pelo menos até ao dia seguinte.
Depois chegavam as férias, não nos encontrávamos por semanas a fio, e a vida decorria com tranquilidade.

E do que me recordo, durante os meus tempos de infância, toda a gente tinha pelo menos um amigo.

Há dez anos atrás eu tinha 15 anos, ia fazer 16. A mesma idade tem hoje a minha irmã mais nova, e impressiona-me a forma como as mudaram neste espaço de tempo.
Nos últimos anos assistimos ao boom tecnológico, a uma extraordinária evolução e transformação do mundo virtual. Em 2013, está toda a gente ligada a toda a gente. Multiplicam-se os perfis registados nas redes sociais: Facebook, Twiter, Ask.fm, Tumblr... entre tantas outras que me são até desconhecidas.

E todos os pequenos reguilas estão registados por essa internet fora.

Começou com o Mirc, veio o Blá e os Amiguinhos.com ou algo desse género. Devíamos ter percebido na altura que era tudo lenha para os putos se queimarem.
De repente havia miúdas com doze anos, a falar com miúdos de vinte. Grave é que essas miúdas de doze, faziam-se passar por dezasseis ou dezoito, e esses miúdos com vinte, eram muitas vezes homens com trinta. Assédios, encontros, abusos consentidos.
Depois descobriu-se que uma excelente forma de nos vingarmos de alguma ex-amiga, era disponibilizar o seu número de telemóvel num chat de encontros. Chamadas infinitas de estranhos a propor todas as indecências (in)imagináveis às tais miúdas pré-adolescentes. Um rir para quem, de fora, observa o desespero da infeliz que não consegue ver-se livre dos telefonemas.
E a essa altura, já todos sabíamos que a internet nos permitia ser quem quiséssemos ou ser ninguém, se fosse essa nossa vontade.
Uma verdadeira bomba atómica nas mãos dos tais miúdos inconsequentes sem noção do alcance das palavras, ou atitudes.
A internet veio encorajar o anonimato, a perseguição fácil e a obsessão de crianças por crianças. Veio facilitar os ataques de predadores sexuais, que se vêm aproveitando da fragilidade de meninas e meninos atacados por outros meninos e meninas, que se sentem sozinhos no mundo e desesperados por atenção.
Aperfeiçoaram-se os ataques pessoais. Os insultos continuam a ser os mesmos, o que faz toda a diferença, é que a internet está dentro das nossas casas. Deixou de existir aquele tempo de liberdade entre insultos, as férias da escola e dos colegas.
As nossas crianças, as dos dias de hoje, deixaram de ter refúgios. Os seus quartos deixaram de ser seguros. Os seus lares deixaram de ser seguros. Sentem-se encurraladas, sem escape e é isso que leva muitas a sucumbir.
É fácil aprender a chamar nomes feios, é mais difícil aprender a defender-se. Sobretudo de agressores protegidos por um computador.

O grande problema?
Quando explodiu este fenómeno de aproximação entre seres humanos, nenhum adulto percebeu do que se tratava. Os pais demoraram muito tempo a perceber as implicações que a rede, que liga milhões, pode ter nas vidas dos seus rebentos. Julgo que ainda hoje, muitos pais não têm essa noção.

Depois matam-se miúdos, outros ficam traumatizados para a vida e ninguém sabe o que fazer. Aparecem petições de tempos a tempos a pedir responsabilidades às redes sociais. Estas petições esquecem quem são os educadores. E os pais, no meio da sua revolta, esquecem-se das suas responsabilidades. Esquecem-se que preferiram fechar os olhos a um comentário no facebook, ou a uma pergunta inapropriada no ask. Esquecem-se que estavam demasiado cansados para fazer valer a sua autoridade numa ou outra noite em que o filho ficou na net até às tantas. Esquecem-se que eles próprios preferiram conversar com um velho amigo no skype, em vez de perguntar ao filho como foi o dia.
Os pais esquecem-se e os filhos perdem-se de si, nunca chegando a descobrir-se a eles próprios.

E podia evitar-se tanta coisa triste. Bastava desligar o computador.

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