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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

A vida, o campo e as galinhas.

É um final de tarde quente, num Verão primaveril de Agosto. A casa é a mesma que conheço há mais de vinte anos, e a varanda continua a ser o espaço tranquilo, num campo que aconchega e conforta uma alma que pode andar meio perdida.

Ao espreitar a minha esquerda, encontro um galo branco a esburacar a terra perto da horta plantada, que teima em não dar frutos. Foi sempre assim esta horta, mas a dona da casa é persistente e sua teimosia é maior. E de repente um carro vindo da vila, procura inverter a marcha num espaço que não lhe pertence. Sempre foi assim. A dona da casa não gosta, e o dono, esse pensa que são sempre visitas a chegar.

Hoje estou sozinha. Com o barulho do vento e o som dos animais. Este nada é precioso. De vez em quando uma luta dispara entre galinhas e galos, os gatos assustam-se e correm da preguiça que descansavam junto ao portão. Começam os cães a dar sinal de presença. São grandes e pachorrentos. Ele desajeitado e ela tão amorosa.

Esta casa, este monte, já foi sozinho neste espaço. À beira da estrada, tão próximo da vila a que pertence, foi sozinho. Quando o conheci, não tinha casa-de-banho, nem garagem. Não tinha galos a cantar, nem cães a ladrar. Não havia horta, nem gatos vadios. A televisão era a preto e branco. Este monte, quando o conheci, não tinha família. Um pai e filho partidos, nada mais.

Para mim, uns seis ou sete anos de meia gente, foi a melhor forma de crescer. Desamarrada, livre. Uma descoberta diária, uma ode à imaginação e ao pensamento livre. Sim, foi a melhor forma de crescer!

É a estas memórias que eu chamo casa.

Das aranhas saltitonas do tempo quente, ao tanque para sempre entupido, plantado no centro deste espaço. Reza a história que fui protagonista dessa proeza, juntamente com o meu eterno amigo de infância que me ensinou a andar de bicicleta. Não mais me recordarei de como o conseguimos, mas será sempre um mimo ouvir contar esta história, ano após ano, como se de um grande feito se trate.

Vejo o castelo. O castelo, sempre ao longe, a olhar por nós. É Evoramonte que nos espreita daquele lado e durante anos, perguntei-me como seria ver-nos daquele topo. Que espectacular, imaginava, seria o meu glorioso Vimieiro visto por aqueles olhos!

Maravilhoso é, verdadeiramente, poder contemplar a nossas casas caiadas de branco, os nossos montes espalhados, a igreja matriz e o depósito da água. Até o convento partido, e as igrejas que já não o lembram, ou o ninho da cegonha, para quem os souber reconhecer. Maravilhoso, não há dúvida. Mas verdadeiramente espectacular, é poder respirar este Vimieiro e senti-lo entranhado na nossa pele, apreciando cada detalhe e a familiaridade desta gente que eu também sou.

E entretanto chega o avô da casa. Avô da neta de verdade e da neta emprestada. O coração deixou de lhe permitir pedalar a bicicleta de corrida, e idade rendeu-se à boleia do destino de quase todos. A sua vivacidade, porém, resiste. No entusiasmo pelo Sporting, no diálogo com os gatos, e no sorriso desdentado com que me presenteia sempre.

Deve ser isto a que se chama vida.

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