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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

'As pessoas que falam sobre o suicídio não vão realmente cometê-lo'

Hoje vais chegar a casa e eu vou estar morta. Sim, amor, morta. Esta vida que me mata aos poucos, vai sugar-se de uma vez e descobrirás que se foi o meu último suspiro. Vou estar morta como podre está este nosso mundo. Sabes amor, começo a ver-nos como fonte. Cada ser humano, uma fonte. Em vez de água, sentimentos. Em vez de água, acontecimentos. Mas como a água, aos poucos, vapor. E amor, quando se evaporam as sensações, o que é que resta? Uma casca, amor. Resta uma casca vazia de tudo, com a fragilidade da carne cortada pela lâmina afiada. Casca. E a casca é dura. A casca não sente. A casca de nada serve e tem de ser quebrada. Não se pode ser uma casca que ocupa o espaço de uma fonte que ainda pode jorrar sentimentos. Não quero ser essa casca, amor. Não quero ser a casca que ocupa o teu espaço. A casca que te rouba o sentimento.

A casca deve ser quebrada. É só uma casca, amor. Não serve de nada porque já secou. Não tenhas medo. Não sintas ângustia. Estou bem, agora que percebi como a vida funciona. Não servimos para nada, mas serviremos sempre o propósito de alguém. A vida é como a liberdade, amor. A liberdade não pode em nenhuma circunstância interferir com a própria liberdade. E a vida também não.

'Em memória de S.' Amor, quero uma daquelas pedras brancas, perfeitamente brancas, com essas letras escritas a cor preta. O dourado fere a vista quando o sol bate, e eu não quero ser uma memória ferida. Prometes, amor? Podes ser tu a escolher o desenho das palavras escritas, pode ser um rabisco, como uma daquelas folhas de papel onde costumávamos aliviar os pensamentos. Ou outra coisa qualquer. Escolhe tu, amor. Escolhe também uma memória bonita, por favor. Quero ser uma memória bonita.

Não quero que perguntes porquê. Não quero que sintas culpa, ou que poderia haver outro caminho. Não peço que entendas hoje, amor. Na verdade, nem espero que entendas um dia. Desejo ardentemente, que nunca o compreendas, por continuar a amar-te.

Lembras-te quando me cortei no outro dia e me encontraste com o dedo a sangrar debaixo de agua fria? Foi nesse momento que percebi. Não viste, não sentiste. Estavas demasiado preocupado para veres o que se passava realmente. Foi nesse dia que descobri a casca, amor. A casca dura sem dor. Quando não há dor, não resta mais nada.

Lavei a tua roupa. Está a secar no estendal da varanda. Por favor, recolhe-a, quando chegares. Fiz sopa. Aquela com a courgette e o alho francês que tu gostas tanto. Está a arrefecer no tupperware em cima da bancada da cozinha. Também comprei iogurtes e o queijo da vaca que ri, para que tomes um bom pequeno-almoço. Há carne no congelador, e uma posta de salmão temperada, no frigorífico que podes fazer no forno. Preparei as rodelas de beringela, recheadas com molho de tomate. Basta colocar no forno. Antes ou depois do salmão, como preferires. As caixas que viste no hall de entrada têm a minha roupa. Entrega-a, por favor, onde possa ser útil.

Comprei uma faca de cozinha nova. Daquelas de cabo de madeira, como preferimos. Está na gaveta juntamente com os talheres. Compreendes que devo utilizar a que já temos, por ser a única que faz um corte decente.

Tirei o cortinado da banheira. Sabes que é o meu preferido e gostava que não se estragasse. Está meio cheia de água quente, amor, e vou entrar porque não quero que arrefeça. Achei mais fácil desta forma, para o sangue não secar na louça.

Vou despedir-me agora, amor. Vi as nossas fotografias, pela última vez. Não reconheço aquela rapariga do teu lado, amor. Casca. É a única coisa em que existo.

Vou morrer agora, amor.

Quero ser uma memória bonita, por favor.

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