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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Bullying - A banalização e incompreensão de uma praga social.

 

No outro dia estava a ver o programa Ídolos, ainda em fase de castings, e de repente aparece aquele miúdo com umas orelhas de tamanho acima da média, que não sabia cantar e foi aproveitado para o segmento dos cromos. E eu estou a ver a programa, sem ligar sequer à voz ou à música que ele está a cantar e o que chama realmente a minha atenção é o boneco que a SIC faz com a orelhas do puto. Aquele desenho animado que era tão óbvio e fácil de criar. Tão óbvio e tão fácil que eu esperava muito mais da SIC. Tão óbvio que eu olhei para a pessoa que estava ao meu lado e disse-lhe 'Marca bem este momento, e não te esqueças que eu fui a primeira a dizer. Isto vai dar merda.' E todos sabemos o carnaval que daí adveio.

Bullying... A facilidade e leveza com que se utiliza este conceito hoje em dia está a torná-lo banal. E a desviar as atenções das situações em que realmente existe essa prática. E sim, existe. Em todos os locais. E abrange todas as faixas etárias e todos géneros. O Bullying não discrimina. Porém, a forma fácil como nos referimos a ele ou o invocamos diariamente, está a banalizar algo que é tão grave que merecia ser levado mais a sério. A prática de Bullying é uma acusação já sentenciada culpada e isso não está certo.

O que se passou naquele dia na televisão nacional, em horário nobre, não foi Bullying. Foi erro. Um erro gravíssimo de várias pessoas que, momentaneamente, se esqueceram da época em que vivem. E absolutamente vergonhoso, foi acompanhar o sensacionalismo crescente com que os restantes media noticiaram o caso.

Uma revista da nossa praça fez uma capa que gritava 'Concurso de Manzarra faz bullying a candidato' acompanhada de foto do apresentador, e em primeiro plano, a tal criança.

Mais uma vez, o desrespeito, banalidade e sensacionalismo em torno de uma situação que foi claramente empolada para vender jornais e revistas aos indignados deste país.

Felizmente para a SIC, pouco tempo depois, este caso é chutado para canto porque uma alma adolescente qualquer se lembra de partilhar um vídeo, já com um ano, onde vimos um jovem franzino a ser agredido verbal e fisicamente por meia dúzia de pseudo-gangsters adolescentes, na Figueira da Foz. As partilhas do vídeo de 00:16 minutos multiplicam-se pelo Facebook, as vozes de pais, filhos e espíritos santos juntam-se às vozes de comentadores, jornalistas, especialistas e outros, num movimento de revolta e indignação crescente e são criados eventos e páginas de apelo à violência, como resposta à violência praticada um ano antes. Vi as fotografias dos miúdos envolvidos serem identificadas e partilhadas na internet, de ânimo leve, por quem deveria saber melhor.

Agora a sério... Oh pessoas indignadas com os bullies da Figueira, vocês sabem que ao partilhar o vídeo e escrevinhar incessantemente palavras de ordem e violentas, bem como os perfis da criançada envolvida, nas várias redes sociais, estão a representar perfeitos hipócritas, certo? Bullying, só para relembrar, é a prática de actos violentos, intencionais e repetidos que podem causar danos físicos e psicológicos às vítimas. E, é isso que estão a fazer! Parabéns, vocês são os bullies dos bullies da Figueira! Ou seja, vocês são a resposta à pergunta 'Por que é que estes miúdos não têm educação?' ou 'Quem é que lhes ensinou que a violência é a resposta?' (...)

Eu escrevi isto na minha página e, previsivelmente, houve quem não compreendesse o que eu me limitava a apontar: o conceito de Bullying não é selectivo. E a semelhança comportamental entre os miúdos que agrediram cobardemente aquele que não se conseguia defender sozinho, com todos aqueles que propagaram na internet um vídeo e imagens que visaram humilhar e atacar verbalmente esses miúdos, é gritante. E assustadora. E é a razão pela qual o Bullying existe e persistirá além de todos nós. Somos adultos, deveríamos saber melhor. Comportar-nos melhor.

Somos educadores. E que raio de educadores podemos ser quando, simultaneamente, somos o paciente zero e o próprio vírus?

Eu já tinha escrito sobre Bullying aqui. Se o tivesse feito hoje, talvez acrescentasse apenas o seguinte:

É uma pena que a internet não tenha vindo com manual de instruções para adultos. É uma pena que os indignados se escondam indignados atrás de um ecrã. É uma pena que os indignados não vejam o seu umbigo por baixo do teclado do computador. E é uma pena, a derradeira pena, que quando algo desta gravidade acontece, a primeira responsabilidade seja acusada aos outros sem discernimento, sem reconhecimento, sem procura, do que poderíamos ter feito melhor.

Não queremos melhorar, ajudar, perceber ou resolver. Queremos apontar o dedo, acusar, pagar na mesma moeda, enquanto clamamos por uma justiça que nos recusamos a praticar.

E assim será, um bando de seres humanos acossados atrás de um conceito que são e, por isso criaram, justificando a inércia com a culpas dos outros.

A ironia é, e nunca o vão perceber, que os outros somos nós.

 

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