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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Cru

Ele encurralou-me no caminho para a casa-de-banho.
'Não disseste que querias magoá-lo a sério?' Tinha o braço estendido a impedir-me o caminho. Fitei-o, surpresa por ter-me seguido e descobri-lhe um brilho negro, de maldade pura, no olhar.
Os meus lábios rasgaram-se num sorriso irónico.
'O conceito de lealdade masculina, está ultrapassado?'
Sorriu-me de volta, sem que se lhe alterasse o olhar. Emanava dele um estranho magnetismo, que o tornava irresistível naquele momento. Contorci-me ligeiramente, e ele percebeu que me ganhara.
Aproximou o corpo do meu.
'Para a minha casa?'
Recuperei o raciocínio. Nada disso.
'Para a minha. Daqui a meia hora. Encontramos-nos lá.' Obriguei-o a afastar-se e entrei na casa-de-banho. Olhei o meu reflexo no espelho e procurei justificar o que estava prestes a acontecer.
Okay miúda, odeias este tipo. Acabaste de dizer-lhe que é detestável nem há uma hora atrás, como é possível que vás enfiá-lo na tua cama?
Encolhi os ombros. Não havia volta a dar. Sabia que aquela noite me daria um importante trunfo, que viria a jogar mais tarde ou mais cedo, juntamente com a minha dignidade. A minha dignidade não me importava.
No quarto, despimo-nos com urgência, sem palavras, sem afectos. Empurrou-me para cima da cama com alguma violência, e pressionou o seu corpo contra o meu. As suas mãos experientes seguraram as minhas acima da cabeça, enquanto percorria o meu pescoço com a língua. Senti um arrepio na espinha. Tentei soltar-me, sem sucesso. Senti a sua erecção colada na minhas cuecas, e apercebi-me do quão grande era. Surpreendi-me. Consegui esquivar-me e as nossas posições inverteram-se. Estiquei a mão e tirei um preservativo de cima da mesa de cabeceira. Estendi-lho. Sorriu-me.
'Não. Coloca tu.'

Senti-me ruborizar. Nunca tinha colocado um preservativo a ninguém, mas não estava disposta a vacilar. Durante a breve operação, perante a sua enormidade, recordei-me estupidamente da ex-namorada dele que era virgem quando começaram a namorar.

 Voltou a colocar-me debaixo de si. Consciente do seu tamanho, do meu tamanho, e das próprias circunstâncias, desceu até ao meu sexo. Deixei-me perder na sua boca. Fez-me vir uma e outra vez, preparando-me para o receber dentro de mim. Ainda assim, quando entrou, não consegui segurar um pequeno grito de dor.
O sexo foi mecânico. Uma troca de favores. A minha mente vagueou em alguns momentos, trazida de volta ao momento pela força dele a rasgar a minha pele.
Sexo sem amor, é comum. É bom. É livre. 
Sexo por vingança, é sexo.
Sexo com o Daniel, foi demasiado seco.
Olhou-se no espelho da madrugada, e o que mais a assustou não foi o eyeliner meio esborratado, reflexo da noite excessiva.
O que a assustou foi ter-se reconhecido naquela pele. Ver aquela figura, brutalmente maquilhada, de vestido curto e botas altas.
Mais do que a roupa, que poderia ser um disfarce, uma máscara reles, absolutamente irrelevante na sua personalidade à luz do dia, reconheceu aquela figura de olhos esbugalhados do outro lado do espelho, de aspecto tão vulgar, como a sua verdadeira essência.
Pela primeira vez, viu-se pelo que era. Pelo que é. Toda aquela conversa sobre crescimento, desenvolvimento, amadurecimento.
Todos os anos de intitulada auto descoberta culminaram naquele momento em que percebeu que se tornara adulta. Infelizmente, não da forma como esperava que acontecesse. Não a pessoa que desejara, que piamente acreditara, que haveria de tornar-se.
Passou a mão pelo cabelo, como quem diz 'Então e agora?'. 
E no entanto, por mais desiludida que se sentisse naquele momento, com a extraordinária descoberta acerca de si, sentia simultaneamente uma inesperada paz, que lhe enchia o peito.
Todo aquele tempo à procura de si própria, acreditando que um dia iria acordar e ser a mulher responsável e ponderada que todos esperavam. Sorria. Quanta ingenuidade! 
E com um esgar de tristeza, constatou: Algumas pessoas pura e simplesmente não prestam. Encolheu os ombros. 
Nunca faria parte dos bons.

O Castelo

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