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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Dez anos

A melhor forma de esquecer um corpo que nos atormenta há demasiado tempo é ter sexo com ele.

Foram precisos dez anos até chegarmos àquele momento.

O encontro fora como de costume. Planeado à última hora, numa noite em que ambos já tínhamos compromissos. Não nos víamos talvez há um ano, embora trocássemos algumas mensagens de vez em quando.

Conhecemo-nos no liceu e sucumbimos a uma atração imediata.

À falta de melhor oportunidade ou local, os nossos encontros resumiam-se às traseiras do local de ensino que ambos frequentávamos. Beijos de língua e apalpões por todo o corpo. Hormonais, mas forçosamente controlados pelo ambiente à nossa volta.

Criou-se uma mística qualquer à nossa volta com o decorrer do tempo. Estabelecemos uma ligação relativamente forte sem nunca nos termos envolvido sexualmente e isso era estranho para qualquer um dos dois.

As vidas foram vividas separadamente, perdendo até o rasto um do outro de tempos a tempos.

Não me interessava particularmente o que acontecia na vida dele, tal como não lhe interessava o que se passava na minha.

Enquanto mulher estava mais facilmente sujeita a descontrolos emocionais que me poderiam levar a sentir a sua falta nos momentos mais difíceis, sem que isso tivesse chegado a impedir que vivesse os meus dias na plenitude.

Da parte dele, pudera sempre contar com poucas palavras. Ainda assim, todas as que disse foram repletas de significado.

Um dia, inevitavelmente, acordei apaixonada. Ouvi canções de amor, daquelas pirosas de cortar pulsos e todas as frases de filmes de sábado à tarde expressavam o sentido da minha vida.

Ilusões. Puras ilusões. Era isso aquele amor.

Não estávamos juntos há, talvez quatro anos, quando voltámos a cruzar-nos. Casual. Sem intenção. E com a maior das surpresas.

Nesse dia beijámo-nos e foi como se não tivesse passado tempo nenhum. Agradável. Ambos livres, sem compromissos e sem intenção de provocar qualquer novo encontro num futuro próximo. Dois adultos, beijando-se como adolescentes, apalpando-se como adolescentes, na esquina de uma rua escondida no meio de nada.

O tempo foi passando e nós também.

Enquanto mulher, emocional, foi ao seu pensamento que recorri sempre que me senti fragilizada. Enquanto mulher, racional, nunca peguei no telefone para lhe ligar ou enviar sms. Enquanto pessoa, nunca me preocupei em saber mais sobre o que poderia acontecer ou não acontecer de pouco ou muito interessante na vida dele. Enquanto ser humano, centrava-me exclusivamente em mim, nos meus interesses, e na minha pseudo-paixão por ele.

Dez anos. Foi o tempo que demorámos até chegar ali.

Próximo do fim de ano e com a certeza da necessidade de finalizar aquela história.

Como sempre, portámo-nos como adolescentes. Encontro discreto, sem necessidade aparente, porque não havia nada a esconder. Fim de noite.

Ele desconhecia a minha intenção. Julgava tratar-se de mais um encontro entre os dois. Nunca houve pressão para que houvesse mais do que o que sempre existira, muito embora, há muito fossemos dois adultos.

Ele só descobriu a minha intenção quando percebeu que lhe abria o fecho das calças. Fitou-me com espanto, e eu limitei-me a trincar-lhe o lóbulo da orelha.

Demorei dez anos a chegar àquele momento. Dez anos de expectativas, de tentativas e de ‘poderia ter sido’.

Demorei dez anos a desencantar-me.

Não trocaria nenhum segundo de beijo na boca para acelerar aquele processo. Ainda assim, perdeu-se a chama.

E eu posso seguir com a vida que é a minha, encerrando em definitivo uma primeira parte de mim.

A melhor forma de ultrapassar a vida com uma alma que nos atormenta é exorciza-la através dos corpos de cada um.

Perdoa, se te apaixonaste.

O Castelo

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