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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Espelho

Por vezes queremos falar, desabafar por entre linhas que nos saem da boca em forma de palavras e frases que até pouco se relacionam com o que está realmente naquilo que designámos ser a alma. Por vezes queremos conforto. Aquele conforto que entende a verdade mascarada pelas palavras debitadas incessantes e com pouca lógica ou sentido. Por vezes queremos estar. Aquele estar que já é o desabafo, no tal conforto, que o entende imediatamente dessa forma.

 

Por vezes queremos parar. Cair. Ou queremos girar. Girar como loucos. Fechar os olhos à multidão, sabendo-a à volta do centro que somos nós. Um centro de massa mais ou menos gorda ou mais ou menos magra que desesperadamente procura exorcizar-nos a mente.

Por vezes queremos parar o pensamento. Não somos nós. É o pensamento.

A força mais forte do mundo não o é ao acaso. Não é uma aspiração. A força mais forte é uma conquista. Pode ser inspiração. Nunca idolatrada.

Antes de ser força, não o foi.

 

Por vezes faltam-nos as conclusões. Falta-nos o ar. Esquecemo-nos de ser protagonistas na vida que é a nossa. Há dias em que se olha à volta sem compreender o tempo o espaço. O tempo que já existiu e o espaço que se pisa.

Como é que se descobre uma pessoa?

 

Por vezes organizam-se espaços, por não se saber organizar o Ser.

Por vezes não falamos mais alto do que o rídiculo gritado pelas vozes na nossa cabeça.

 

Um dia ele acordou e não reconheceu no espelho a figura que o fitava. Voltou ao quarto e olhou a cama vazia. Relanceou as horas no despertador digital e descobriu-se sem sítio. Não sabia a pessoa que era e desconhecia como se encontrara ali. Não se lembrava daquele homem de cabelo farto e barba por fazer, que se chamava reflexo. Não tinha memória daquele quarto, daqueles móveis, daquela casa, daquele espelho.

Lembrava-se de adormecer. Sim, adormecera na noite anterior. Disso recordava-se perfeitamente. Deitar-se na cama e fechar os olhos, escutando a música que passava na rádio do costume. Sim, recordava-se perfeitamente. Mas o quarto não era aquele e a cama também não era aquela. E ali não havia música. Não havia rádio ou televisão. A vida não é um mau filme de pipoca e por isso, sabia-se não ter sido transportado para uma realidade alternativa ou um futuro distante estupidamente retorcido. Ainda assim, nada ao seu redor lhe pertencia e muito menos, aquela barba desleixada ou aquele mau corte de cabelo. E deu por si perplexo, cheio de admiração com a falta de reacção com que agia perante a estranheza de todo aquele cenário. Abismado e algo assustado, com a indiferença que parecia existir-lhe no peito ao contemplar aquela manhã surreal.

Que sensação era aquela que até se lhe chegava à boca? Amargura? Apatia? Inércia? Não podia ser. Nem se lembrava de conhecer tais sensações a não ser de conceito. Então por que motivo lhes pareciam a única realidade familiar no espaço em sua volta?

Voltou-se novamente para o espelho. Examinou com atenção aquele homem. Ali estava. Aquela cicatriz por cima do sobrolho. Reconhecia aquela cicatriz. Um colega de turma atirou-lhe uma pedra à cabeça durante uma briga de rapazes, no quarto ano. Levou cinco pontos e tiveram de o amarrar porque não deixava ninguém aproximar-se. Aquela cicatriz era sua. Então aquele homem, era ele? Aquela apatia, aquela amargura, aquela indiferença, pertenciam-lhe?

Adormeceu. Lembra-se de ter adormecido na noite anterior. Estava a ouvir música na rádio de sempre, a cabeça a mil porque tinha saído o resultado das candidaturas à universidade. O pensamento livre. Lembra-se de ter adormecido com o pensamento livre. Carregado de planos, de objectivos, vincados detalhadamente, e que nunca se tornariam sonhos ou frustrações sem concretização.

Sim, foi assim que adormeceu.

As rugas. A expressão abatida. Aquele ar derrotado. Quem lhos trouxe sem avisar?

O Castelo

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