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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Morreu Robin Williams e de repente o mundo fala sobre depressão

Morreu Robin Williams e de repente o mundo fala sobre depressão. O mundo fala sobre suicídio. Infelizmente amanhã, o actor continuará morto, quinze em cada cem 'depressivos' continuarão a matar-se, e nada continuará a contribuição de cada um de nós para a prevenção, para o alerta, para o que raio possa fazer-se em relação a este bicho. Um bicho que come por dentro.

Há tempos, mais de um ano, li uma notícia sobre o actor em que ele afirmava estar falido. Desconhecia o passado de luta com a adição, e também desconhecia a depressão, mas a notícia que li na altura foi suficiente para que esta morte não tivesse sido o choque que foi para a maioria do planeta.

O problema que eu vejo aqui é que esta morte que traz hoje o suicídio a debate, que pega na depressão e a discute nas redes sociais e nos meios de comunicação, é passageira. Não me interpretem mal, obviamente que a morte não é passageira. Segundo sabemos, é precisamente a única coisa que não é passageira. Passageira é a nossa memória da causa da morte que é eterna. Hoje, todos os dias um pouco mais, a nossa memória é passageira. Esgota-se o assunto num dia, em meia dúzia de horas, alguns milhões de caracteres, e logo se arruma de novo numa caixa que só voltará a abrir quando outro acontecimento mediático ocorrer. 

A depressão pode estar a acontecer ao nosso lado, o apelo suicida pode estar a bater à porta da casa onde também vivemos, e mesmo assim não vamos reconhecê-la. Ou não vamos querer reconhecer. É muito fácil, muito mais fácil fingir que não está lá. Porque não se vê. É fácil acreditar num deus qualquer, que também não se vê, não se sente nem é palpável, mas no sofrimento de alguém que nos é próximo, não é assim tão fácil. Talvez seja porque num deus qualquer existe esperança e alento. Num depressivo só existe medo, confusão, tristeza absoluta, sentimentos negativos e sombrios. Não é fácil encarar sentimentos sombrios. Creio que, virtualmente, a partilha de uma fotografia de uma paisagem qualquer com a mensagem 'deus está em todos nós' terá muitos mais 'likes', mais comentários e suscitará mais interesse, do que uma actualização de estado de um amigo que até nos é próximo com um simples 'hoje estou triste'. Isto é só um exemplo. Pode ou não ser representativo daquilo que se passa por aí. Não faço ideia. 

A depressão é um estigma. Amanhã continuará a sê-lo. E o suicídio é controverso. É possível que jamais alguém compreenda os motivos que levam outra pessoa a matar-se. Especulações mais ou menos agressivas, mais ou menos radicais, são o que resta aos vivos. 

É-me incrivelmente fácil conceber realidades que terminam com uma overdose de comprimidos, uma corda atada ao pescoço ou um passo em frente onde já não há chão. É-me incrivelmente fácil conceber a decisão e os porquês que a motivam. Não sei, no entanto, se estes porquês são transversais a todos os que concebem a ideia como eu, ou aos que concretizaram efectivamente o suicídio. Creio que os motivos de cada um possam ser apenas verdadeiramente compreendidos por si e ninguém mais.

Há quem lhe chame egoísmo, apatia, desespero. Chamam-lhe tantas coisas! 

Eu vejo o suicídio como o último acto de controlo do ser humano sobre si mesmo. Não sei explicar de outra forma. Vejo os pensamentos sem travão numa mente em desassossego. Vejo a incapacidade de reagir à sociedade, às coisas simples do dia a dia. A incapacidade de viver numa mente descontrolada e num corpo que padece do bicho invisível. 

É isto que eu vejo. A derradeira oportunidade de decisão do ser sobre si, a certeza, apesar do desconhecimento sobre o que é a morte, de que será um fim. A única forma de matar o bicho.

Eu quero acreditar que a depressão pode ser tratada. E também quero acreditar que deixará de ser um estigma na sociedade. Um dia, pelo menos! A verdade é que essa visão prejudica o depressivo. Fá-lo sentir indesejável. Fraco. Marginal. Isto não é um exagero. É pura verdade.

 

Gostava que um dia a sociedade ultrapassasse o medo que transforma a depressão em estigma. 

Admitir o problema é o primeiro passo para encontrar a solução, certo?

A sociedade está doente de medo. Já é hora de admitir.

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