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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

O dia em que conheci o meu pai

O meu pai fez parte das Forças Populares 25 de Abril (FP-25), uma organização de extrema esquerda que, nos dias de hoje, poucos conhecem ou ouviram sequer falar. Fizeram parte da História deste Portugal após o 25 de Abril de 1974, e fizeram parte da minha História. 

Ele e a minha mãe conheceram-se numa altura em que andava escondido na clandestinidade deste país, e na altura, até se apresentou com um nome que não era seu. Era casado, já com uma filha, na altura, mas apaixonaram-se. Naturalmente que veio a saber que ele fazia parte da organização e acabou tão 'cúmplice' quanto a mulher de um pseudo-terrorista pode ser. 

No início de 1987 ele foi preso e, numa rusga à casa dos dois, encontraram uma arma. Ela também foi presa. Desconhecia a existência da arma e nunca participara em nenhuma acção da organização. Libertaram-na e, naturalmente, começou a ser vigiada.

Em Agosto desse ano, numa tarde, ela foi encontrar-se com dois amigos que lhe traziam roupas para a bebé que ia nascer no mês seguinte. Convidaram-na para lanchar e ela, com a sua barriga de oito meses, aceitou.

Foram perseguidos por carros da polícia no meio de uma chuva de tiros, de um lado e outro. 

Ela foi atingida no pulso esquerdo que pousava sobre a barriga de oito meses, e pensou que a bebé já não nascia. 

Pediu para pararem o carro e caminhou até ao S. José, o hospital mais próximo. Durante todo o percurso foi perseguida por um agente da autoridade. No hospital, ele disse-lhe:

'A D. Angélica não foi presa da última vez, mas vai desta. Há um homem nosso morto e alguém tem de pagar.'

Ela não sabia que alguém tinha morrido.

Foi o caso Militão.

 

Eu nasci em Setembro, num poético e quente domingo, na MAC (Maternidade Alfredo da Costa). Tive direito a escolta policial, e quando regressei ao EPL (Estabelecimento Prisional de Lisboa) fiquei presa com a minha mãe por dois anos e meio. O meu pai também continuava preso.

No julgamento, a minha mãe acabou absolvida. Ficou provado que uma bala perdida da própria polícia matou o agente Militão.

 

Eles acabaram por separar-se. Ele envolveu-se com a advogada, mas não foi essa a causa da separação. Aconteceu. Estivemos juntos algumas vezes. Viemos a Lisboa passar um fim-de-semana, e recordo-me que andámos de barco e fomos ao Jardim Zoológico. Foi divertido.

Também me lembro de uma vez, em casa da minha avó, em que lhe puxei a cadeira quando ele ia sentar-se e estatelou-se no chão. Deve ter doído! 

Houve também aquele dia em que os dois discutiram porque eu queria um gelado depois de almoço e a minha mãe não deixou. Foi estúpido porque eles discutiram forte e feio, e no fim, foi ela que me levou ao café do Manuel João para me comprar o tal gelado. Aqueles da Avideza em forma de Pantera cor-de-rosa.

 

A última vez que estive com o meu pai foi no dia 6 de Setembro de 1993. Não estivemos juntos durante muito tempo, mas quando cheguei a casa, tinha mais presentes do alguma vez vira à minha espera. Estava lá a minha primeira bicicleta. Daquelas de menina e passeio. Cesto em frente e tudo.

Fiz seis anos nesse dia.

 

Sentir é uma coisa que custa, e dói um bocadinho, e vulnerabilidade não é o meu forte.

Durante muitos anos brinquei com a intenção de todos aqueles presentes. Dizia que eram a compensação pelos anos que estaria ausente.

Mas acabaram por esgotar-se e ausência continuou.

 

Próximo do final do ano de 2007, talvez em Outubro ou Novembro, eu acordava numa manhã de domingo com um telefonema. Tinha passado o fim-de-semana em Portalegre, onde estudava. Estava meio desorientada, ainda meio a dormir, e ouvi do outro lado da linha:

'Estou, filha? É o papá!'

 

Durante o ano seguinte telefonou-me com mais ou menos frequência. Até deixar de o fazer novamente.

Veio a Portugal há cerca de três anos e não se preocupou ou interessou por saber de mim. Não me procurou.

 

No Verão passado estive no Porto durante pouco mais de dois meses. Conheci tio, tias, primos e avó. Conheci até a mãe de uma nova irmã que entretanto ganhei. Foi nessa altura que ele voltou a contactar-me.

Falámos algumas vezes ao telefone e eu tentei, contrariando a menina que há em mim, não criar qualquer tipo de expectativas ou sequer acreditar no que ele pudesse dizer-me.

 

Na passada terça-feira recebi um telefonema. Disse-me que no dia seguinte chegaria a Lisboa e queria estar comigo. Disse-me que desembarcava pelas 16h50 e assim que estivesse fora do avião ia comprar um telemóvel e ligar-me.

Não acreditei, apesar de querer com todas as minhas forças acreditar.

Durante a tarde vi as horas a passar e nada. Nada. E o meu coração cheio de nada.

 

Dia 5 de Março.

Eram 18h30 quando o meu telefone tocou.

Comparo-me com uma criança a quem alguém dá um chupa chupa que estava a pedir há uma eternidade.

Corri para o Metro, para chegar ao Rossio.

Encontrámos-nos em frente ao Teatro D. Maria II.

Sentámos-nos a uma mesa de café a conversar.

Eu e o meu sotaque alentejano, e ele com aquele sotaque cerrado do norte.

 

Falámos sobre política.

Ele deixou-me no Metro da Baixa e seguiu para Sta. Apolónia, a apanhar o Alfa para o Porto.

Prometeu ligar-me para nos encontrarmos novamente antes de voltar a Luanda.

 

Sentir é uma coisa que custa, e dói um bocadinho, e vulnerabilidade não é o meu forte.

 

O Castelo

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