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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Short Story (ou o Nicholas Sparks que há dentro de mim)

1.

Ele ia casar. Sim, casar. E ela nem sabia que ele estava numa relação.

A maioria das raparigas que vê O Casamento do Meu Melhor Amigo, fica de coração partido quando o Dermot Mulroney escolhe a Cameron Diaz, e deixa a Julia Roberts sozinha com o amigo gay, no casamento.

Ela não era a maioria das raparigas. Projetava-se na personagem de Roberts, vendo-se a desempenhar o mesmo papel. Também ela deixaria passar o momento, e continuaria a amar em segredo, até perceber que esse amor não era mais que o hábito, a promessa, e uma rede de segurança.

Ele ia casar. Isto significava que a melhor parte dela ia perder-se. Ele deixaria de ser a promessa de um futuro, num dia no amanhã que teimava em não chegar, mas em que ambos sempre haviam acreditado. Ele ia transformar-se 'naquilo que podia ter sido'.

Ele ia casar. Cansara-se de esperar por ela. Desistira da tal promessa adiada por anos, desse dia que nunca chegava.

 

 

I

 

No dia em que se conheceram, estava a chover.

Ela tinha corrido a abrigar-se na biblioteca. Ele estava lá dentro, sentado num pequeno sofá, a ler um jornal, muito metido na sua vida. Ouviu a porta fechar com um estrondo, e levantou os olhos apenas para encarar aquela figura encharcada, envergonhada mas ainda assim divertida, com a comoção causada. Uma figura que pingava água pelo chão, enquanto os presentes a olhavam como se fosse um ser extraterrestre. 

Não conseguiu evitar um sorriso. Aquela menina assustada, e simultaneamente divertida com a excessiva atenção, cativara-o. Demorou-se a observá-la, enquanto despia o enorme casaco e o pendurava num cabide junto à porta. O tempo suficiente para que a sala regressasse à normalidade.

Pendurado o casaco, ela procurou em volta um lugar livre para sentar-se. Ao perceber que não conhecia ninguém, franziu o sobrolho, aborrecida. Mas ele continuava a observá-la. E inevitavelmente os seus olhares cruzaram-se. Ela corou e ele sorriu, envergonhado, por ter sido descoberto. Ela sorriu de volta. Ele apontou para a poltrona vazia ao seu lado, e ela aproximou-se. Tremia com frio, e ele percebeu. Sem pensar, despiu o casaco e ofereceu-lho. Com os olhos abertos de surpresa, aceitou-o e encheu-se de calor no momento em que o colocou sobre os ombros. O gesto de cavalheirismo desconcertara-a, e fitava agora aquele rapaz com um misto de confusão e curiosidade. Ele, divertido com a sua confusão, devolvia o olhar mais doce que ela alguma vez sentira.

Demoraram-se assim durante um tempo que não contou, até eventualmente perceberem que não tinham ainda trocado uma palavra.

Ela corou novamente, ao perceber que não agradeceu o gesto ao rapaz. Soltou uma leve gargalhada ao tomar consciência da sua patetice.

'Olá. Sou a Ana.'  - Estendeu a mão, num gesto tão sério e profissional, que parecia estar numa entrevista de emprego.

Foi vez de ele soltar uma pequena gargalhada.

'Olá. Eu sou o Pedro.' - Devolveu, com a expressão mais séria que conseguiu colocar, aceitando-lhe a mão, mas sem apertar.

Rasgaram-se os lábios num enorme sorriso.

'Obrigada pelo casaco!' - E enterrou-se no sofá de olhos fechados.

 

2.

Okay, ele ia mesmo casar. Não era uma brincadeira. Mas como é que as coisas tinham chegado até ali? Em que momento é que ele tinha conhecido alguém? Em que momento se tinha apaixonado e essa pessoa se tornara mais importante que ela? Em que momento é que ele tinha decidido que aquela relação era 'para a vida' e, sem a avisar, decidira quebrar a ligação entre os dois?

Sentiu o coração começar a bater mais forte, na mesma medida em que a respiração se descontrolava. Segurou-se à parede por sentir uma tontura forte. Sabia que se tratava de um pequeno ataque de ansiedade e que poderia conter-se se a mente se sobrepusesse à matéria.

'Merda!' - Soltou. Fora essa contenção emocional uma quota-parte de se encontrar ali. Sozinha. Sem ele. E ele ia casar. Com alguém. Sem medos. Sem contenções de amar.

Mas não podia ser. Não fazia sentido. Certamente seria uma brincadeira. Uma forma de lhe chamar a atenção. De fazê-la correr a beijá-lo. Sim. Só isso fazia sentido. Como raio poderia ele ir casar, quando não lhe conhecera nenhuma namorada nos últimos tempos?

Espera... Fazia quanto tempo, desde a última vez que estiveram juntos? Não conseguia lembrar-se. Estava demasiado nervosa. Não conseguia raciocinar.

Quando? Quando fora a última vez?

 

II

 

Estavam deitados, nus, por baixo de um fino lençol já esburacado por pequenas traças invisíveis. Ele fumava um cigarro, enquanto ela olhava o nada, de cabeça encostada no seu peito.

'Queres?' - Perguntou ele, oferecendo-lhe uma passa.

'Nah... - Fez um esgar de nojo – detesto o sabor que fica na boca!'

Ele afagou-lhe o cabelo.

'Isso quer dizer que não vais voltar a beijar-me hoje?' - Perguntou com um leve sorriso.

'Se calhar não!' - Atirou ela com o seu ar travesso, olhando-o nos olhos, para logo em seguida baixar a cabeça e lhe trincar com força o mamilo.

'Auuuuch!!!'

Ela afastou-se, rindo audivelmente, e ele logo a agarrou com a força de quem não quer largar, e apertou-a junto a si.

'Vamos ser sempre nós, sabes?' - Disse, com a certeza de quem vê muito além no futuro

Ela respondeu em forma de abraço, pressionando-se contra aquele corpo que se moldava na perfeição ao seu.

Ele respirou fundo.

'Ana...sabes que vamos ser sempre nós, certo?'

Ela deitou a língua de fora e respondeu-lhe.

'Um dia tu vais apaixonar-te por uma miúda normal. Mas hoje, ainda não é o dia!' - Encaixou-se mais no seu abraço.

Ele revirou os olhos.

'Depois desta alta manutenção, nunca serei capaz de contentar-me com menos.'

 

Quando abriu os olhos, já o sol se tinha posto há muito.

'Pedro, acorda.' - Sussurrou-lhe ao ouvido.

'Mmm...'

Abanou-o suavemente.

'Acorda, Pedro! Já é de noite...'

'Então, se é noite bem que podemos dormir até amanhã de manhã...' Resmungou ele entredentes. Tentou agarrá-la e fazê-la sossegar, mas sem sucesso.

Ana levantou-se, e começou a vestir-se. Contrariado, abriu os olhos e sentou-se na cama.

'Mas por que é que queres sempre ir embora? Estamos tão bem... - Beijou-lhe ao de leve a omoplata – aqui... - Voltou a beijá-la – isolados do mundo!' Continuava a beijá-la, enquanto procurava desapertar-lhe o soutien, acabado de vestir. Ela esgueirou-se dos braços dele, levantando-se da cama, antes que conseguisse ser bem sucedido.

'Pedro, leva-me a casa. Sabes que quero abraçar-te e não sair mais daqui, mas é hora de regressar ao mundo de verdade. Além disso, isto lá são lençóis que se apresentem a uma rapariga com quem se quer passar a noite?' Reclamou, apontando para um pequeno buraco no lençol.

'Tens compromissos?' Já adivinhava a resposta àquela pergunta, e sabia que não queria ouvi-la.

Ela fitou-o com ar culpado. Foi a vez de ele saltar da cama. Pousou-lhe o dedo sobre os lábios.

'Não devia ter dito nada. Eu sei. Então, não abanes a cabeça! Tinha saudades tuas, é isso. E quero sempre mais, quando estou contigo.'

Ela baixou a cabeça.

'Sabes que não sou boa nisto. Esta coisa que nós temos...não tem definição. Um dia Pedro... - Voltou a abanar a cabeça – noutra realidade.'

 

Ele soprou de descontentamento.

'Um dia...! Sabes quantos dias já passaram desde a primeira vez que disseste isso?'

Ela sorriu, trincando a ponta da língua, e recuperando o bom humor. Fez-lhe uma festa na cara.

'Tu és a minha pessoa perfeita, num timing horrivelmente errado! Ainda assim, a minha pessoa perfeita.'

Pedro reprimiu um sorriso.

Sabia disso. Sabia perfeitamente que aquela era uma situação muito particular, em que se viram envolvidos, sem possibilidade ou desejo de fuga. Sabia que jamais o seu envolvimento, tão intenso, lhes encheria as medidas da satisfação. Por isso talvez, sentia um pequeno aperto no peito sempre que a deixava. Por reprimir palavras e mascarar sentimentos, porque ela não lhe permitia dizer o que lhe ia na alma, por recear a si própria.

Queria acreditar que um dia ela perderia o medo, ou que ele ganharia coragem. Para já, contentava-se com os pedaços do que poderiam ser, e com o meio caminho que podiam percorrer. Adiava-se o todo, ficando-se pela metade. Adiavam-se aos dois.

 

Eram quase dez e meia quando o carro parou em frente à casa dela. Nenhum dos dois tinha realmente vontade de despedir-se. Permaneceram quietos, por instantes, adiando o momento. Começavam a dar-se conta da incerteza de não saber quando voltariam a poder partilhar aquele tempo, que lhes era tanto e tão essencial.

Continuavam quietos e em silêncio. Faziam sempre o mesmo quando chegava o momento da despedida. Pareciam dois miúdos nervosos com medo de dizer uma frase, por saberem que teria que terminar com 'Adeus'.

Sorriam, nervosos. Reconheciam o ridículo de tamanha dramatização. Ele quebrou o silêncio.

'Tens a certeza de que não queres ir jantar a qualquer lado?' Queria, a todo o custo, prolongar aqueles últimos momentos.

Ela relanceou as horas no rádio do carro, e revirou os olhos.

'Não posso. Já estou atrasada. Ainda nem tomei banho, e o João deve estar aí a chegar.' Piscou-lhe o olho. 'Tenho de livrar-me destas roupas impregnadas de suor e sexo!'

Ele soltou uma forte gargalhada. Puxou-a para si, e abraçou-a com força. Ela sentiu-se arrepiar.

'Somos demasiado disfuncionais para o nosso próprio bem, miúda.' Disse, conformado.

Ela soltou-se do seu abraço.

'Estás particularmente dramático desta vez, meu querido. O que é que se passa?'

Pedro sorriu e abanou a cabeça.

'Nada. Se calhar estou naquela altura do mês!'

Ela fez uma careta.

'Ah, ah, ah. Pensei que já tivéssemos conversado sobre a tua incapacidade patológica para fazer piadas!'

'A minha única incapacidade, a par com o facto de não conseguir obrigar-te a ficar comigo de forma permanente!' Atirou ele daquele jeito de quem brinca, dizendo a verdade.

A expressão dela endureceu.

'O que é se passa, Pedro?'

Ele respirou fundo, mas não respondeu. Ela insistiu, sem sucesso. Soprou exasperada. Detestava aquelas indiretas sem explicação ou justificação. Voltou a olhar para as horas. Tinha mesmo que sair dali. Ele tinha que ir-se embora. Não podia arriscar que João chegasse e desse de caras com os dois. Endireitou-se e encarou-o, olhos nos olhos.

'Tenho mesmo de ir embora. O João vai chegar a qualquer momento e não pode encontrar-nos aqui. Tu sabes. Ele não tem culpa que eu seja completamente desaparafusada...e tu também não.' Disse, como que a desculpar-se.

Ele voltou a respirar fundo, e devolveu o olhar. Estava desiludido consigo por se deixar levar pela tal falta de coragem. Quis dizer-lhe mais, mas como sempre, faltaram-lhe as palavras.

Beijou-a demoradamente.

'Somos os dois.' - Balbuciou, antes de a libertar.

Ela saiu, finalmente do carro, e fechou a porta atrás de si. Avançou para o portão, mas deteve-se, e voltou atrás. Bateu no vidro, fazendo-lhe sinal que o baixasse.

'Não é nada de especial. Eu vou continuar aqui.' Virou costas e foi embora.

Ele percebeu que se referia ao relacionamento que mantinha com João. E também percebeu que ela quis dar-lhe uma justificação. Quis assegurar-lhe que continuariam intocáveis, muito embora, cada vez mais, longe um do outro.

 

3. Cinco. Cinco anos era o tempo que os separava daquele último encontro. Era verdade o que diziam sobre o tempo voar. A relação dela terminara pouco depois e o trabalho levara-a a passar quase dois anos em Tóquio. O excesso de confiança naquele relacionamento disfuncional fizera-a negligenciar a pessoa com quem mantinha o próprio relacionamento. Falaram via Skype algumas vezes, nunca as suficientes. E desencontraram-se entre compromissos e fusos horários. Quando voltou para Portugal não fora visitá-lo. Porquê? Não se recordava. E aquela namorada, aquela noiva? De onde raio aparecera?

Ele ia casar.

 

São as pessoas que se colocam entre si, sabotando inconscientemente, as suas próprias relações.

Sabotou o seu amor.

Ele ia casar. E merecia ser feliz.

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