Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Sobre a praxe académica.

No ano passado, abstive-me de comentar a catástrofe, transformada em carnaval, que foi a morte dos miúdos no Meco. Subitamente toda a gente discutia a praxe, e os especialistas surgiam aos molhos quais treinadores de bancada, com opiniões mais ou menos estúpidas sustentadas em argumentos mais ou menos ridículos com muito pouco sentido e analogias do arco da velha. Uns baseados em experiência própria e outros baseados em coisa nenhuma. Abstive-me de comentários porque não gosto do carnaval. Nunca me hão-de apanhar em Torres Vedras nessa semana anual de loucura e perdição, da mesma forma que não me apanham nos bairros lisboetas em dia de Santos Populares, ou no Marquês de Pombal em dia de festejo do campeonato nacional. Não gosto do carnaval, como não gosto de ajuntamentos populares. E se tenho horror a ajuntamentos físicos, abomino em absoluto ajuntamentos pseudo-intelectuais, pseudo-especialistas, e cujo principal e terrível objectivo é influenciar e transformar uma opinião pública cada vez mais preguiçosa e que pouco ou nada procura informar-se. É desta forma que se aterrorizam massas, se fomenta a ignorância, e se propagam os radicais e os extremistas.

Bom, abstive-me de comentar este, como me abstenho de comentar outros assuntos que quase já chegam esgotados à praça pública, depois de trucidados por uma comunicação social que já não informa e se resigna à moderação dos debates entre quem comenta. Os tais especialistas. Da treta.

Mas hoje voltou a estar na ordem do dia. E, antes que veja/leia mais alguma coisa, que não a notícia que foi registada inicialmente sobre o tema, registo também eu sem que ninguém mo tenha pedido/pago pelos meus pensamentos. Afinal, sou tão especialista em praxe quanto qualquer outro. 

Em primeiro lugar quero fazer notar que fazer uma comparação entre esta tradição e outras como a tourada, largar fogo a gatos, ou os casamentos infantis, faz tanto sentido como, propositadamente, dar um tiro no próprio pé. Menos, até. Existe mais lógica na crença de que matar infiéis dá direito a 72 virgens quando se chega ao equivalente ao céu islâmico, do que nesta noção que já vi defendida por aí.

Vejamos o seguinte:

Tourada/Tauromaquia: Espectáculo em que homens que se apelidam de toureiros/cavaleiros, incitam um touro bravo ou não, a lutar até à morte, no recinto ou não. A lutar é como quem diz, porque feitas as contas, o animal morre sempre. Tudo para gáudio de uma assembleia popular que se regozija perante o assassinato de um ser vivo sem poder de escolha ou decisão. Um homem é aplaudido por uma multidão, que festeja a morte como se de uma luta pela sobrevivência se tratasse.

Queima do gato: Auto-explicativo. Parece que remonta ao tempo do celtas, esta tradição. O homem associou há tempos o gato à prática da bruxaria, e o gato, que não fala a mesma língua, é pequeno e fácil de apanhar, viu-se sujeito durante séculos à morte pela fogueira. Agora já não morre, apanha só um sustozinho. 

Casamento infantil: Os adultos existem para mandar. As crianças existem para ser mandadas. Escolher é um privilégio dos adultos do sexo masculino. Se um homem com 60 anos decide casar com uma criança de 6 ou 7, que capacidades/armas tem essa criança, cuja personalidade não tem oportunidade de desenvolver-se, para se defender? 

E depois temos a praxe. No caso, a praxe académica.

Em teoria, um conjunto de costumes e convenções baseados numa relação hierárquica e usados por estudantes mais velhos de uma instituição do ensino superior, de forma a permitir a integração dos mais novos no meio académico.

Na prática, exactamente o descrito em cima. Costumes e convenções talvez não tão convencionais consoante a cidade, a universidade, a escola, ou sobretudo o estudante que os pratica. É certo que há quem fique cego por um poder que não é real nem estendido pelo tempo. É certo que há quem queira esticar a corda até quase partir. 

Em semanas de praxe corremos, saltamos, gritamos até ficar sem voz, brincamos com coisas estúpidas, subimos e descemos as mesmas ruas vezes sem conta, comemos mal e lavamos louça de meses que alguém acumulou especialmente para nós, caímos no chão quando alguém grita 'granada', respondemos quando nos tratam por bicho, passamos frio e calor, acordamos cedo e vamos dormir tarde. Bebemos muito. Levamos com mistelas no cabelo que se forem lavadas com água quente o transformam num bolo, cumprimos horários, vestimos a mesma t-shirt suja dias seguidos, desesperamos e rimos quando nos mandam olhar para o chão. Fazemos coisas tão desprovidas de sentido como escrever dissertações sobre a caça dos gambuzinos só porque alguém com mais matrículas nos pediu. 

Em semanas de praxe, somos idiotas puros. Idiotas felizes. Idiotas que criam laços, porque partilham experiências daquelas do riso que leva às lágrimas. Descobrimo-nos e descobrimos um mundo que nos pertence e ao qual pertencemos porque conseguimos chegar ali. Porque quisemos chegar ali. 

Não. Não é a praxe que nos torna mais universitários, mais licenciados, mais estudantes. 

A praxe é uma escolha. Nunca uma obrigação ou uma condição. Não vai influenciar as tuas notas, ou negar a tua integração social. A praxe é uma experiência, um primeiro contacto com a cidade que te vai acolher e com as pessoas de que vais partilhar. Uma escolha. E aceitá-la não significa fechar os olhos, negar limites e obedecer inconscientemente a quaisquer imposições. 

Ser praxado não significa abdicar de vontade própria, de crenças ou princípios. Não tens que ultrapassar os teus limites. Podes testá-los, se quiseres. Por-te à prova e descobrir até onde estás disposto a ir. Se assim escolheres. Mas tens de escolher. Esse é um direito teu do qual não deves abdicar. A menos que queiras fazê-lo.

Por cada veterano estúpido cujo pico social é a falsa sensação de poder de uma praxe, há um caloiro estúpido que cede à tal obediência cega. A falta de carácter é tão gritante num como no outro.

Então, onde é que está o problema?

Não me falem em pressão dos pares ou tretas sociológicas semelhantes. Com 18 anos não somos de vidro. Já sobrevivemos a grande parte da adolescência. E a educação veio de casa. Dos pais. 

A minha mãe ensinou-me a bater o pé. A defender-me. A dizer não quando quero dizer não. A arriscar. A escolher. E a sobreviver com e às minhas escolhas.

Com 18 anos e no primeiro dia de praxe, eu era adulta e sabia escolher. Já me tinha sido ensinada a importância da escolha. A liberdade da escolha.

Foi a minha mãe.

E se a chamassem ao hospital, no final da primeira semana de praxes porque deixei que me enterrassem até à cabeça na areia de uma praia, e bebi ao ponto de ter de me ser feita uma lavagem ao estômago porque um estudante qualquer me obrigou, ela dava-me uma chapada na cara. E era bem dada. Não foi isso que me ensinou.

 

*Se fosse eu a escolher beber até entrar em coma, ela provavelmente ria-se da minha cara, cortava-me a semanada, e atirava-me isso à cara em todas as festas de família, para o resto das nossas vidas. 

 

 

 

1 comentário

Comentar post

O Castelo

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D