Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Vamos falar de dinheiro.

Hoje apetece-me falar sobre dinheiro. Bom, não será falar. E, a ser sincera, não sei se apetecer será a palavra certa.

Eu e o dinheiro não temos uma boa relação. A verdade, é que nunca fomos muito próximos e talvez por esse motivo, a nossa relação não tenha evoluído da melhor forma. Por norma, difícilmente na minha carteira se encontram mais do que uma ou duas moedas. E, as que lá se encontram, têm um valor igual ou inferior a cinquenta cêntimos. Uma em cada cem vezes, são capazes de encontrar-me com vinte euros no bolso. Quando me parece que as compras do Pingo Doce terão um valor inferior a esse. Isto é facto.

Sou utilizadora confessa do dinheiro de brincar. Chamo dinheiro de brincar àquele que está distribuído pelos cartões do banco. É um dinheiro que existe apenas virtualmente, que transaciono entre empresas sem nunca lhe chegar a pôr as mãos em cima.

Minto. Apercebo-me agora que existem outras alturas em que tenho dinheiro, físico, na minha carteira. É quando estou no Alentejo. Há duas caixas multibanco no Vimieiro (por sinal, as únicas que me dão notas de cinco), e não existem terminais de pagamento nos cafés, restaurantes ou minimercados. Ainda me lembro do quanto fiquei feliz quando a minha cabeleireira de sempre anunciou que passaria a receber pagamentos via multibanco. Devemos ter ficado as duas, até porque 80% das vezes em que ia cortar o cabelo, o pagamento acabava por ser feito vários dias, se não semanas, depois. Esquecia-me sempre de levantar dinheiro, e era a minha mãe que lá passava depois para pagar. Uma vergonha, eu sei. Já na depilação, a mesma coisa. A minha sorte foi sempre a sorte de quem se conhece das terras pequenas, aquela confiança entre todos.

Mas estou a divagar.

O pensamento deste texto é mesmo simples. Não ligo muito a dinheiro. E isso não é, necessariamente, uma coisa boa. Mas também não é má. Sou uma pessoa consumista, na mesma medida em que todos os somos, foi assim que crescemos. Gosto de consumir determinadas coisas, e gastar dinheiro nessas coisas, dá-me realmente prazer. Todos gostamos e quem o negar, mente a si mesmo. Felizmente, melhor ou pior, a carteira vai-se gerindo de acordo com essas necessidades de consumo. Por outro lado, é-me indiferente chegar a dia vinte de cada mês com duzentos euros na conta, ou com dez. A verdade é esta, e sim, este é provavelmente o lado que não é necessarimente 'uma coisa' boa.

Há obrigações financeiras das quais obrigatoriamente (perdoem a redundância) não podemos escapar-nos. Isto quando decidimos dar-nos ao luxo de manter uma determinada independência, na nossa jovem idade adulta. Renda de casa, luz, gás (isto lembra-me que está na altura de mandar vir nova garrafa), água, e o pacote de tv+net+telefone+(agora)telemóvel que passou a fazer parte dos essenciais. Depois, no meu caso (e dos restantes filhos do êxodo rural), uma ou duas visitas por mês à vila/aldeia dos pais, restante família e amigos de sempre. E o passe, não esquecer o passe, necessário a quase todas as formigas da cidade. Estas são as 'dívidas' a honrar todos os meses. Algumas de dois em dois meses, se escolhermos factura bimestral. Respondidos estes compromissos, posso respirar de alívio. Não sobra muito, e aparece sempre uma novidade qualquer com a qual tem de se cumprir, uma ida ao médico, uma torneira que se parte, um microondas que avariou, enfim... É comum, e uma pessoa habitua-se a isso. Significa apenas, que sobra ainda menos um bocadinho.

Eu não consigo levar o dinheiro muito a sério. O sítio onde escolhi viver, a forma como escolhi viver, mas sobretudo, a idade e época em que não escolhi viver, não me permite levar o dinheiro muito a sério. Porque ele não existe fisicamente. Sei que existe, única e exclusivamente, porque sinto a água a aquecer todas as manhãs, porque quando anoitece continuo a ver dia em casa, porque na minha televisão vejo a sic notícias, e porque quando digito números no telemóvel, consigo falar com alguém do outro lado da linha. Esta é a verdade. Mas não consigo levar esse acreditar em notas e moedas, demasiado a sério. Ou tão a sério, como a maioria das pessoas considerará o mais correcto. Concluí já há alguns anos, e nada mais a vida faz do que confirmar-mo, que 'amealhar' é apenas um conceito que conheço da Língua Portuguesa. Conheço o seu significado, mas ainda não tive a oportunidade de vê-lo na prática. A precariedade do meu contrato de trabalho, do meu vencimento, que continua a ser promovida e incentivada pelas grandes empresas como aquela a quem presto serviço, não me permite qualquer margem de manobra para construir uma base sólida, financeiramente sustentável, para o meu futuro. Simplesmente não é possível. Esta ideia, que pode parecer absurda para muita gente, é a mais pura realidade não só para mim, mas para qualquer jovem que, como eu, esteja disposto a sobreviver na sua independência, por oposição a viver da dependência de pais ou outros familiares. E, vamos lá, sobreviver na independência, ainda se torna mais complicado na cidade. Isto não são queixas ou choraminguices. Mais uma vez, é a constatação de um facto.

Então, eu não valorizo o dinheiro, porque nunca chega a ser meu. Porque não me vale de nada. Não me ajuda a construir nada. É mesmo assim. Sou perfeitamente capaz de o trocar por um sorriso. Um sorriso de qualquer pessoa que me pareça necessitar de qualquer coisa mais do que a mim me faça falta. Consegui, por exemplo, influenciar (instruir, até) quem me é próximo a fazer uma coisa tão simples como parar na rua e ouvir um pedido de ajuda de alguém em necessidade. A contribuir, por exemplo, para as recolhas de alimentos, ou a comprar aquele porta-chaves inútil cujo valor no dizem que irá reverter-se em apoios para doentes crónicos, ou crianças órfãs.

Se eu não consigo amealhar, então prefiro partilhar, distribuir.

Não, não serei o expoente da virtude e solidariedade, nem aspiro a tal. Prefiro é, desvalorizando o pouco que tenho, e que nunca é verdadeiramente meu, utilizá-lo no presente, em meu benefício e dos que me rodeiam. Faz-me tão feliz ver aquele sorriso estampado na cara de alguém que acabei de ajudar de alguma forma, como me faz feliz, comprar aquele livro ou aquela peça de roupa que andei a namorar quando passei na Baixa no outro dia.

Como já referir num outro texto neste blog (que honestamente poderia ir procurar e linkar, mas não é importante e também não me apetece), a este país em que vivo, posso agradecer a castração forçada ao sair da faculdade. E as lambadas (sempre adorei esta palavra, à excepção de quando era utilizada pela minha mãe para, simpaticamente, me oferecer uma) épicas que o dia-a-dia de sobrevivência independente me tem dado no focinho (sim, eu escrevi focinho, que rude da minha parte), ensinam-me que o bem-estar tem de existir no presente, com o futuro a ser constantemente um ponto de interrogação com garantias de absolutamente nada. Nada, meus amigos, não é melhor do que pouco, ao contrário do que nos fazem acreditar. E pouco, é aquilo que tenho agora.

Assim, eu vivo numa sociedade consumista. Vivo numa sociedade precária, com dinheiro de brincar, que nunca chega a pertencer-me. E consumo, continuo a consumir à minha maneira, o tipo de bens não essenciais que me dão prazer consumir, por ser a única pequena escolha que posso escolher. E é muito mais fácil sobreviver independente e castrada, se tiver aquele livro que eu queria tanto comprar.

O Castelo

foto do autor

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D