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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Eu, Sara.

Sinto-me escritora desde que me lembro de começar a escrever. Sem presunção. Mas sinto-me escritora. Respiro cada palavra que escrevo e sou apaixonada por pessoas. São fascinantes.
Escrever começou por ser um escape de uma realidade que não correspondia às minhas expectativas. Criava as minhas personagens baseando-me nas vidas que eu gostaria de ler e viver. E era fácil. Era tão incrivelmente fácil!

Quando tinha 13 anos, disseram-me: 'Devias perder menos tempo com escritas e começar a aproveitar a tua vidinha'. Na altura, dizer que estas palavras me caíram mal é um eufemismo. Não passava de uma miúda assustada, envergonhada, e com um grave complexo de inferioridade. Só queria que me deixassem em paz na esplanada do quiosque da minha mãe, a ouvir a rádio comercial, ou o cd do Bryan Adams, Best of me, em replay, no discman que tinha sido do meu irmão.

Viver para quê, se a minha imaginação superava todos os limites, enquanto eu, sobretudo pela idade, estava tão condicionada?

Criava todos os dias um pouco mais, alinhavando histórias, mudando de ideias, procurando caminhos alternativos para os meus personagens. Sem técnica, com paixão. Sem preocupações ou aspirações. Por gosto. Porque meia dúzia de linhas saídas da minha mente exploradora elevavam o meu espírito a um estado de 'auto-satisfação' que nunca havia experimentado.

Um dia, a imaginação deixou de ser suficiente. Estava a crescer. Estava a experimentar emoções reais. Estava a construir amizades com pessoas de verdade. Estava a conhecer cidades. Estava a apaixonar-me e a ver o meu coração partido. Estava a amar a vida e as pessoas.

Nesse dia, parei de escrever histórias. Parei de criar personagens. Não parei de escrever. Não conseguia compreender-me e, por esse motivo, optei pelo discurso directo. Houve momentos em que julguei perder-me em alucinações intensas que me faziam roçar a insanidade. Descrever na primeira pessoa todos os detalhes, os pensamentos mais sórdidos e retorcidos que passavam pela minha cabeça enlouquecida, era o que me permitia voltar à realidade. Analisando objectivamente, como espectadora, como leitora, aquela vida desenfreada que era a minha.
Não fossem os cadernos intermináveis de descrições a roçar, e muitas vezes a ultrapassar, os limites do socialmente aceitável e politicamente correcto, a esta hora estaria internada numa qualquer instituição psiquiátrica com um quadro clínico de esquizofrenia pura, bipolaridade ou outra doença mental.

Demorei algum tempo, mais do que desejaria, a encontrar o equilíbrio. Depois da ficção dos anos da infância e pré adolescência, a forte dose de realidade deixou-me atordoada.
Durante os últimos 3 ou 4 anos andei um tanto ou quanto perdida. Esqueci-me de acreditar em mim e as palavras desapareceram da minha memória. Uma mente em branco. Esqueci-me da importância que escrever tem na minha vida, e quando me lembrei, desesperei por não conseguir construir uma frase. Por não conseguir definir uma linha de raciocínio. Parecia perdida para sempre uma parte de mim. A parte mais importante de todas. A única que me diferenciava, que me caracterizava e que, em última instância, me mantinha sã.

E como recuperá-la? Procurei cadernos antigos, procurei experiências, procurei músicas, procurei livros, filmes, televisão, e procurei sentimentos. Procurei pessoas. Não encontrei. A ansiedade corroía-me o cérebro.
Um dia decidi procurar-me a mim, no presente. Procurei saber mais sobre como cheguei até ao hoje. Vislumbrei a minha sombra numa esquina e isso deu-me o impulso necessário para me embrenhar numa perseguição, no presente, até ao dia que será amanhã. E esta procura, perseguição que seja, parece estar a dar frutos. Um pouco mais, a cada dia que passa, volto a entregar-me ao que me faz feliz, saudável, e acima de tudo, tranquila.

Sinto-me escritora desde que me lembro de começar a escrever. E, hoje, é isso que me faz levantar da cama todos os dias.

A adrenalina provocada pelo desafio de sentir, e provocar sentimento com a simplicidade da palavra.

Favores em cadeia ou cadeia de favores?

Há um provérbio que diz: 'No good deed comes unpunished'. De acordo.

Rejo-me pela filosofia de que não existem boas acções ou favores desinteressados. A filantropia que praticamos é, no íntimo, movida pelo egoísmo de nos sentirmos bem connosco próprios. Não digo que isto esteja errado. É a nossa natureza. E neste caso, o fim pode justificar-se pelo meio.

Eu, por exemplo, não consigo evitar contribuir para as mais variadas instituições quando me abordam na rua, caso contrário não consigo dormir bem à noite. Isto não quer dizer que sou a melhor pessoa do mundo, aliás nem sei quando me tornei nesta pessoa, mas a verdade é que sinto esse impulso de dizer 'sim' a todos os que me pedem ajuda para tudo e mais alguma coisa. Faz-me sentir bem comigo mesma.
O mesmo se aplica às situações em que alguém que conheço está deprimido ou em dificuldades por certo motivo. Sinto uma necessidade patológica para ajudar essa pessoa. Porque ajudar vai fazer-me sorrir, e sorrir faz-me feliz.
É esse o meu interesse. É esse o meu egoísmo.

Porém, do alto do meu não tão secreto egoísmo jamais usarei das minhas 'boas acções' para conseguir favores em troca. Jamais usarei das minhas 'boas acções' para condicionar o comportamento futuro do seu receptor.
As escolhas pertencem a cada um. Eu escolho ajudar, dar um empurrão quando necessário, porque eu quero. Não vem alguém do abrigo dos animais desamparados, ou da instituição das crianças pobrezinhas, ou um amigo/conhecido qualquer, apontar-me uma arma à cabeça para que eu possa dar um euro ou mexer uns cordelinhos.
Ninguém me deve nada por eu agir de encontro às suas necessidades. Ninguém me deve absolutamente nada. Ninguém precisa de agradecer-me de todas as vezes em que me encontrar no futuro. Não precisam de estender o tapete vermelho para eu passar. Não me devem absolutamente nada.
Afinal de contas, limitei-me a agir de acordo com a minha consciência.

E talvez por tudo isto, a minha filosofia choque de frente com a postura de muitos outros. Também eu, igual ao resto do mundo, sou 'vítima' de boas acções e favores que queiram prestar-me. Aceito de bom grado e aprecio, mais do se pensa, a boa vontade e o interesse pelo meu bem-estar. Não sofro da arrogância de ser demasiado importante para dizer 'obrigada'.
Porém, não vejo lógica no acto de, figurativamente, lamber as botas seja a quem for. Não o faço e jamais o farei. Agradecimento não é sinónimo de desvalorização pessoal. E, quando somos objectos da boa acção de alguém, significa que esse alguém está a valorizar-nos. Não serei certamente eu a desvalorizar-me logo em seguida, só porque essa pessoa parece ter esquecido o que a levou a estender-me a mão em primeiro lugar.

Não aceito castigos em troca de favores. Nem que isso signifique ser isolada na solitária por tempo indeterminado.

Felizmente, há os pobres!

Estou triste por ver que os milhões de alguns, não chegam para pagar aos pobres a miséria que lhes ofereceram.

Estou revoltada. No meio de tanto lucro, de tantas palmas, tantos investimentos milionários. No meio de tanta inovação, de tanta aposta, de tanta excelência. No meio dos mares de possibilidades, de oportunidades que se apregoam.

Estou triste.
Como continuar a ser a cara dos milhões quando em casa falta a comida, o gás, a água, a luz, o sustento?

A frustração do estômago vazio. O meu e o da minha mãe.
A frustração da impotência pela procura de não encontrar solução.

Como raio posso eu dormir descansada à noite sabendo que quem está na minha lista de pagamentos não tem cobertor, e eu estou rodeada de mantas de pele?

É que eu não preciso de ter muito, para partilhar o pouco. Dinheiro não vale mais que uns trocos. Pessoas valem muito mais. Ou deveriam valer.

Qual é a força necessária para sair da cama de manhã, sem comer há 24 horas, caminhar quilómetros até ao local de trabalho, porque não há dinheiro para transportes, à beira das lágrimas e com vergonha de chorar, desesperando a cada passo, envergonhado por não se conseguir ser mais?

A minha mãe perdeu o emprego e provavelmente não encontrará outro durante anos. É uma daquelas velhas para trabalhar e novas para reformar. O meu trabalho é precário, mal pago, como tantos outros, e tem de pagar as contas. É dia 19 e o fim do mês ainda vem longe. Na carteira nem um cêntimo. O frigorífico, vazio.

A culpa não é minha e também não é da minha mãe. Mas sinto vergonha porque, apesar de saber conscientemente que não está ao meu alcance, acho que deveria fazer mais. Mas NÃO depende mesmo de mim.

Para os homens do lucro não há caras. Não há crise. Não há miséria. Não há a pergunta: 'Como é que conseguimos chegar a estes números?' - O que interessa é que no final de cada ano eles existam.

Os verdadeiros pobres jamais deixarão de o ser porque é neles que está a solidariedade. São eles que sabem contar tostões e partilhar a sua pobreza com quem tem menos ainda.
Ainda bem que estes pobres existem. Ainda bem que faço parte deles. Ainda bem que não esqueço que há quem precise mais.

Posso não ter um euro na carteira, mas o meu frigorífico está cheio. Posso comprar champô da marca que gosto e pasta de dentes daquela mais cara. E enquanto eu puder fazê-lo, posso sair do meu pedestal de egoísmo e ajudar quem não pode sequer comprar uma lata de salsichas de marca branca.

Não esqueço que pode chegar a minha vez. Nenhum de nós devia esquecer. Porque no meio desta desigualdade social, estamos mais próximos do que tentamos fazer-nos crer.

E a verdade é que, por entre milhões desaparecem os nossos tostões.

No fim, restam pessoas. Gente que encontra força entre si, ajudando-se a sobreviver a cada dia. Parte de uma mesma família, unida por circunstâncias não tão extraordinárias, respirando a verdadeira solidariedade desinteressada, dando mãos sem largar, até estarmos todos de volta no mesmo patamar.

Sim, o mundo está recheado de interesses políticos, económicos, e outros que tais. Nesta vida há muita gente que não presta, nem merece o tal bom ar que ainda se respira. São esses os do lucro. Felizmente, do lado de cá, também há muita gente boa.

Hoje vi alguém a mover montanhas para ajudar outra pessoa. Faz-me acreditar que amanhã pode ser melhor.

'Cantas bem, mas não me alegras'



O movimento 'Que se lixe a Troika' resolveu no dia de hoje manifestar-se na sessão da Assembleia da República, entoando a emblemática canção 'Grândola vila morena' de Zeca Afonso. Este será um protesto contra os elevados números de desemprego e taxa de recessão, anunciados esta semana. A demonstração de descontentamento ocorreu durante o discurso de Pedro Passos Coelho, que aceitou a interrupção e aguardou pacificamente, enquanto os manifestantes foram 'convidados' a abandonar a Assembleia, continuando a cantar. A reacção do primeiro ministro não surpreende. Com excelente sentido de humor, coerentemente desrespeitando os motivos que levam a estas acções, afirmou, sorrindo, que se tratou da melhor interrupção que poderia ocorrer durante uma sessão parlamentar e que, inclusivamente, lhe recordou a comemoração do 25 de Abril de 2012.

A notícia está em todos os jornais e a ser discutida em blogs e nas redes sociais. Na sua maioria, vejo comentários de incentivo, muitos deles citando uma frase da letra da canção - 'O povo é quem mais ordena'
Também há quem diga que Pedro Passos Coelho teria 'saído por cima' se tivesse entoado a canção juntamente com os manifestantes.

Gostava de saber quantos elementos do movimento 'Que se lixe a Troika', votaram PSD nas últimas legislativas. Não acredito que sejam todos comunistas, bloquistas ou socialistas. E, se forem apartidários, se muitos deles nem tiverem sequer votado, então, tenho em crer que não lhes devia ser permitido manifestar-se.
Não podemos interessar-nos pela política do nosso país só depois de os governantes estarem eleitos e as decisões tomadas.

De qualquer forma, e de encontro a tudo o que tenho dito e escrito sobre todas estas 'polítiquices' ou 'anti-polítiquices', já vinha sendo altura de parar com estas manifestações pacíficas de descontentamento, que remetem para uma revolução que aconteceu naquela que parece ter sido, uma outra vida.
Estaríamos já a tempo de acabar com sonhos, transformando-os em objectivos. Não vivemos num musical da Broadway, em que cantamos todos juntos até os problemas se resolverem magicamente. Quando muito, a continuar com estas cantorias e falta de acção, não passaremos de uns pobres miseráveis numa versão ainda mais dramática que Les Misèrables. A continuar desta forma, seremos um Jean Valjean que morre precocemente.

Se há por aí tanta gente que acredita que é 'o povo quem mais ordena', por que razão continuam a deixar-se ordenar por governantes que, perante a passividade destes protestos, nada mais fazem do que sorrir e continuar a impor medidas que levam à ruína centenas de famílias todos os dias?

Vamos sair para as ruas. Forçá-los a sair. Sem medos da reacção que a nossa acção possa provocar. Sem receio da polícia, sem receio do abuso de poder. O nosso inimigo é esta passividade. O tal medo de agir e o egoísmo perante o próximo. Para conseguirmos algo, o que quer que seja, temos de pensar no todo e não apenas no individual. E aqueles de nós que sofrerem as represálias do abuso de poder, é por eles que continuaremos a lutar. Continuaremos a lutar ao invés de nos queixarmos. Devem ser uma motivação para todos.

O grande problema para os portugueses em geral, é que o sofá e a Tv são bem mais apelativos do que o grito da revolta. Simpatizamos com os pobres que perdem casas e refeições, mas só levantamos o rabo do sofá quando a crise nos bate à porta.

'O povo unido jamais será vencido' - Pena que, para existir união, seja preciso ficarmos todos na merda. É a velha história de só se ver um determinado umbigo.

Medo? Não, obrigada.

Há coisas que me fazem alguma confusão.
Determinadas atitudes e formas de agir que eu não compreendo.

Há medos que me preocupam. Refiro-me àqueles medos que nos impedem de mudar o mundo.
Injustificável.

Levo a sério a minha liberdade de escolha. O poder de opinião livre que posso exercer na sociedade a que pertenço, e que pode contribuir para melhorar a existência de quem a habita. Valorizo profundamente o meu direito ao voto. Pessoalmente, julgo que, mais do que um direito é um dever. E deveria ser uma obrigação. Não entendo como alguém pode não querer envolver-se nas decisões que vão influenciar a sua vida. Muito menos consigo compreender, ou sequer aceitar, que alguém tema participar desta ou daquela ideia, por recear represálias por parte de quem 'está no poder'.

Ninguém mais do que cada um de nós, pode alterar a realidade que habitamos. E se estamos insatisfeitos com a falta de capacidade dos nossos líderes para nos guiar, devemos demonstrar esse descontentamento. Se existe um projecto melhor para nós, um projecto focado nas nossas necessidades enquanto seres humanos, devemos apoiar esse projecto. Devemos, mais que apoiar, contribuir para que seja o NOSSO projecto. Transformá-lo no nosso objectivo primário. Juntos.

Vivemos tempos difíceis, bem o sabemos. É altura de esquecer partidos. A política não pode continuar a ser tratada como um clube de futebol. Não podemos continuar a votar neste partido, porque sempre o fizemos e porque, há trinta e tal anos atrás foi a melhor opção para a nossa aldeia, vila ou cidade. É tempo de mudança e todos o sabem. Se é verdade que há muitos anos o projecto do partido tinha os interesses da população em mente, também é verdade que nos últimos anos, parecem ter-se esquecido da importância de quem representam. Talvez embalados pelo saber de que a política local se tornou desinteressante para os mais interessados.

Falta-nos em que acreditar. Mas, mais grave, falta a muitos de nós, acreditar que o poder da mudança é nosso.

É que, se existe um projecto focado em nós, que se preocupa com as nossas necessidades e vem junto de cada um perceber o que realmente faz falta, por que razão vamos esconder-nos com medo de quem lá está hoje, quando seremos nós a votar amanhã?

O povo jamais deve sentir vergonha por ambicionar o melhor. O povo jamais deve sentir receio por desejar mais para cada um e para todos. O povo jamais poderá sentir-se oprimido. O povo jamais poderá esquecer que a vida, pertence a cada um.

E, meus caros, o patrão, presidente, ou partido político que esquecer tudo isto, JAMAIS pode continuar a representar-nos.

O sonho burguês

Burguesia é uma palavra da língua francesa, que descreve inicialmente uma classe social que nasceu na Europa, na Idade Média, com o renascimento comercial e urbano. Desde o final do século XVIII, refere uma classe caracterizada pela propriedade de capitais, e visão materialista do mundo. Na filosofia marxista, o conceito burguesia denota a classe social que detém o meio de produção, e cuja preocupação é o valor da propriedade e da preservação do capital, cujo objectivo é garantir a supremacia económica na sociedade.
Hoje, a burguesia é a classe dominante das sociedades capitalistas.

Capitalismo é um sistema económico em que os meios de produção e distribuição são de propriedade privada e têm fins lucrativos. Todas as decisões de oferta, preço, distribuição e investimentos, são tomadas pelos proprietários que investem nas empresas, e os salários são pagos por essas empresas aos trabalhadores. O capitalismo baseia-se no reconhecimento dos direitos individuais. Todas as propriedades são privadas e o governo existe, para evitar a desordem e banir a violência.

Aristocracia. Poder dos melhores. Trata-se de uma forma de governo, na qual o poder político é dominado por um grupo elitista. As pessoas deste grupo são a classe dominante: grandes proprietários, militares, sacerdotes, etc.

'É incrível os sacrifícios que as pessoas fazem para viver em capitalismo'

Julgo incríveis os sacrifícios que se fazem para sobreviver todos os dias, numa sociedade transformada por revolucionários que hoje se tornaram pseudo-intelectuais, que defendem princípios de igualdade, enquanto se agarram com a força do mundo à teta operária que lhes dá de mamar.

Fala-se nos livros de História de uma revolução que existiu neste país. Parece que corria o ano de 1974. Diz-se que Portugal estava há anos tomado por um regime fascista que oprimia o povo pequenino das aldeias, mas que incomodava sobretudo os militares e os 'burgueses' da sociedade.
Ao povo pequenino das aldeias, pela ignorância sujeita à sua condição, teria passado ao lado as politiquice de quem estava no poder. Possivelmente teriam passado mais 40 anos e morrido Salazar, sem que tivessem mexido uma palha. À falta de conhecimento, de cultura, de sabedoria, não lhes teria incomodado tanto a falta da liberdade de poder falar. O povo pequenino, ignorante pela pobreza que o rodeava.
Porém, consta que os aristocratas da época, não estavam mesmo nada contentes com o estado da nação. Ouvi dizer que foi planeado pelos militares um golpe, mas que logo se aperceberam que sozinhos não conseguiriam vencer. Pouco interessava que os objectivos de militares e povo tivessem apenas em comum derrubar o homem que estava no poder. Pouco interessava que militares e povinho de aldeia pudessem ter ideias muito diferentes de como 'distribuir' a liberdade reconquistada. Interessava à aristocracia portuguesa semear o bichinho da revolução, pelo povo ignorante. E o povo existe para ser manipulado. O povo existe para ser comandado segundo a vontade forte das classes dominantes. É isso a política.
Então, fez-se a revolução.
O povo das aldeias continuou pobre. A burguesia tornou-se burguesa. Os militares sucumbiram à burguesia. O povo das aldeias continuou pobre.
Nasceu o capitalismo.
O povo pequenino das aldeias continuou pobre. Mas todos podem votar. E, mais importante, todos podem criticar e opinar sobre quem está no poder.
O povo pequenino das aldeias continua pobre. Não é o fascista Salazar que os empobrece. São os burgueses que fizeram a revolução.

É incrível os sacrifícios que as pessoas fazem para viver em capitalismo. Alguns até fazem revoluções.

Sara, está despedida!

Eu não sabia o que era isto do desemprego. Não tinha uma ideia real do que significa estar desempregado. Confesso até que, a determinada altura, acreditava piamente que existiam mais pessoas a não querer trabalhar, do que pessoas realmente desempregadas. Eu não tinha conhecimento da realidade da procura, do desespero de não encontrar. Desconhecia o sentimento de euforia ao abrir a caixa de e-mail ou ao receber um telefonema de um número desconhecido. Desconhecia a desilusão por uma entrevista não ter corrido bem. Não fazia ideia do que era aquele sentimento de encontrar a oferta perfeita, submeter uma candidatura e não ter resposta do outro lado. Para mim, este conceito de desemprego estava demasiado escondido entre um nevoeiro, tão denso, que me parecia nem pertencer a esta realidade.
Recordo-me que simpatizava, comovia-me ao saber das histórias das gentes que iam perdendo os seus empregos todos os dias. Mas não pensava sequer duas vezes, não imaginava tão pouco, como seria aquele momento em que te chamam a uma sala e te dizem que o teu trabalho deixou de ser necessário por este ou aquele motivo. Nunca me perguntei qual seria a primeira coisa a passar pela cabeça de quem está a ser despedido. Nunca parei para considerar o que sentiriam aquelas pessoas no momento em que lhes era roubado o sustento.

Acordei. Respirei fundo e saltei da cama. Como em todas a manhãs. Duche, roupa, 5 minutos de ronha e sair porta fora. Mais um dia de trabalho igual a tantos outros. Durante o dia inteiro senti o estômago às voltas, um mau estar constante. Tudo se processava com naturalidade à minha volta. Nada distinguia aquele dia, de outros tantos anteriores.
Foi ao fim do dia, a cerca de 15 minutos da minha hora de sair que me chamaram, juntamente com a minha chefe, a uma sala para uma reunião com o representante da empresa no local.
Senti o mundo cair-me em cima. Senti raiva. Senti ódio. Senti o tal desespero ao pensar nas minhas responsabilidades financeiras. Dizer que não reagi bem é um understatement. Tive um ataque de ansiedade e uma estranha out of body experience enquanto tudo acontecia. Toda a cena era no mínimo ridícula: Gritava entre soluços se o meu trabalho não valia de nada, enquanto me respondiam um redondo 'NÃO', e me gritavam de volta, vezes sem conta, 'A menina Sara tem de se acalmar!'. Que cena tão estúpida. De 'fora de mim', ria às gargalhadas perante toda a situação. Em que mundo é que gritar a uma pessoa que está a ter um ataque de ansiedade, que tem de se acalmar, é solução? Na sala estavam três pessoas, além de mim. A minha chefe, o representante da empresa, e uma coordenadora que eu nunca antes tinha visto. A primeira foi, tal como em todo o tempo que trabalhámos juntas, uma perfeita inútil. De cabeça baixa o tempo inteiro, escapulindo-se na primeira oportunidade. Quanto aos outros dois, dividiram-se entre bad cop e good cop, respectivamente.

'Sara, veja esta situação como uma oportunidade. Que idade tem? 25 anos? Ainda é muito nova, tem muito pela frente.'

'Tem de assinar a carta. Vá lá, assine! E acalme-se! Tem de despachar-se! Preciso desta sala para uma reunião!'

Tenho lido muitos depoimentos, visto muitas reportagens, entrevistas, etc., de pessoas que perdem os seus empregos pelas mais variadas razões. Geralmente gente mais velha, mais 'batida', que não se deixa quebrar facilmente e consegue manter a postura quando necessário. Admiro essas pessoas. Para mim foi um choque. Foi a primeira vez que aconteceu e não soube como reagir. Senti-me, e fui, humilhada pela pessoa que me disse aquelas duas palavras. Senti-me impotente por não poder lutar, responder à altura de tudo o que me foi dito. Ouvi muitas palavras de provocação, fui pressionada ao meu limite e não consegui reagir. Não parava de pensar que se ficasse calada, se fosse bem educada, talvez houvesse forma de alterar a decisão. Fui ingénua até ao último segundo.

Quando saí daquela sala, encontrei a vergonha. Foi nesse momento que descobri o estigma do desempregado. Os olhares furtivos, as conversas a meia voz, o sentimento de pena. De repente, todos os teus colegas começam a olhar-te como se tivesses uma doença rara e estivesses em fase terminal. Sentem uma necessidade enorme de confortar-te com palavras de incentivo, frases feitas que julgam eles, vão fazer-te sentir melhor. Encorajar-te todos os dias, em todos os momentos possíveis. E, ai de ti, que caias na asneira de sorrir, aparecer um dia bem disposto, com outro tema de conversa que não seja o infame despedimento. Livra-te de fazer piadas que terminem com a frase 'O que é que vão fazer? Despedir-me?', porque isso só pode significar que não estás bem da cabeça. Sim, para os teus colegas é mais ou menos como o Natal, uma oportunidade de se sentirem solidários, sem arredondar é certo, mas com palavras que consideram mágicas e que vão melhorar o teu dia.

Eu não sou, nem fui depois de ser despedida, uma desempregada dramática. Não tenho paciência para o choque, para o choramingar, para consolar colegas que continuam com trabalho, por EU ter sido despedida. O meu momento dramático aconteceu naquela sala. Depois saí, pensei e estranhamente senti alívio. Por poder desempenhar o papel de mim mesma, no restante tempo que por ali fiquei. Se há dizer popular que sigo à risca é 'não chorar sobre leite derramado'.

Depois de mentalizar-me que chegava ao fim uma etapa da minha vida, tratei de reagrupar-me. Interiormente, antes de tudo. Tratei de recordar-me da minha pessoa, dos meus sonhos, pelos quais nunca lutei realmente, pelos meus objectivos. Tratei de traçar um primeiro plano para me ajudar na conquista de um primeiro objectivo. Tratei de perder o medo, por descobrir que já não há nada a perder. Sei onde estou, sei onde quero chegar, e sei qual o primeiro passo que tenho que dar.

Não cheguei a esta conclusão no momento em que saí da sala. Passaram-se dias, semanas que pareceram intermináveis. Afastei-me do mundo para evitar que me toldassem o raciocínio. Doeu-me alma. Quis esconder-me de todos e de mim. Voltei a escrever. Convenci-me de que o difícil é ultrapassável. Sobretudo quando não há nada que nos prenda. Voltei a acreditar em mim. E, embora não pareça a muitos, embora julguem que estou doida ou a esquecer esta economia, nunca vi o meu futuro com tanta clareza. O meu futuro é lutar. Lutar todos os dias, para continuar a fazer o que mais me dá prazer. Lutar todos os dias para continuar a respirar sentimentos e a viver palavras.

O desemprego não é uma oportunidade. Mas perder o emprego dá-nos tempo. O tempo é precioso, e a seres humanos egoístas, como eu, permite-nos descobrir coisas fantásticas dentro de nós.

O desemprego não é uma oportunidade. Mas eu posso ser. Nós somos oportunidade.

Troco alguém, por algo

Coisas vs. Pessoas

Troca-se alguém por algo.

O futebol.
Choro porque o meu clube perdeu um jogo de futebol, mas não sinto nada perante a perda de um familiar.
Choro porque o clube de futebol por quem torço atravessa um período de crise profunda a nível económico. Mas não me incomoda que falte pão em cima da mesa para alimentar a minha família.
Fico triste com a saída de jogadores e treinadores da equipa que me entretém aos fins de semana, mas sou a pessoa mais feliz do mundo quando viro costas aos meus pais que vejo duas vezes por mês.
Revolto-me com arbitragens que considero injustas, mas não me dou ao trabalho de oferecer o ombro a um amigo que necessite.
Grito com jogadores dentro de campo exigindo o melhor de cada um deles, como se disso dependesse a minha vida, mas não me chateia muito que os meus filhos tenham um bom desempenho na escola.
Começo a hiperventilar com a perspectiva da próxima contratação, mas estou a borrifar-me para o vestido novo que a minha namorada comprou para me agradar.

A religião.
Sou Jeová, não acredito em transfusões de sangue. O meu filho está a morrer, não faz mal, é a vontade de Deus.
Sou muçulmano. Violas as regras que estão definidas no meu livro mágico, vou apedrejar-te.
Sou indiano, as vacas são sagradas, mas as mulheres podem ser violadas. É engraçado que na Índia existe uma lei que protege militares contra acusações de crimes sexuais. É a lei dos poderes especiais das Forças Armadas.
Sou católico, não posso 'desejar a mulher do próximo', mas não tenho problemas em deitar-me com a mulher do meu vizinho.
Sou ateu, não acredito em nenhuma religião. Tu és estúpido por acreditares nesses disparates todos.

No fundo, está tudo dentro de nós. O desejo egoísta de seguir sempre com a nossa vontade. A concentração em nós mesmos. Naquilo que nos faz sentir bem e que gostamos. O centro da vida de cada um, é a própria pessoa. É por isso que todas as coisas que fazem parte dos nossos dias, são postas à frente das pessoas que nos rodeiam. Seja família, amigos, ou o desconhecido com quem nos cruzámos na esquina. Quando colocados em cena o objecto/actividade/coisa e a pessoa que tenta chegar até nós, escolhemos o primeiro. Podemos não fazê-lo abertamente. Podemos fingir que a nossa atenção está centrada em quem está connosco, mas isso é mentira. A vida passa por nós em momentos, e em cada momento escolhemos o que temos vontade de fazer, o que queremos ver. Preferimos concentrar-nos em coisas, do que viver emoções com a nossa gente. Acontece todos os dias. Porque somos todos egoístas. Queremos todos alimentar os pobrezinhos, mas preferimos comprar um telemóvel novo. Estamos todos solidários com o estado de crise do país, com os cortes de subsídios, e com o número crescente de desempregados, mas este fim de semana temos mesmo de ir gastar uns trocos a Barcelona.

Porém, do alto do nosso egoísmo, somos os primeiros a apontar o dedo aos outros que como nós, agem da mesma forma, mas o fazem com mais abertura. Sem receio de o esconder.
'Que vergonha, tantas crianças a morrer com fome e tu aí a mandar comida para o lixo!'
Somos uns egoístas cheios de moral. Egoístas moralistas! Apregoamos tudo o que é certo, todos os passos que devemos dar para vivermos num mundo equilibrado. Infelizmente, nem quando se trata de escolher entre ajudar o nosso irmão mais novo a estudar, e ver o 'Sozinho em Casa' pela quinquagésima vez na televisão, conseguimos fazer a escolha certa.

As pessoas não duram para sempre. Parece que nos esquecemos disso todos os dias quando ligamos o computador ou a televisão. As pessoas não são objectos, não são coisas para brincar quando não há mais nada para nos distrair. As pessoas, são quem nos dá calor. E quando morrem, não há jogo de futebol, religião, ou o que quer que seja, que nos aqueça como elas.

O Castelo

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