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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

Liberdade condicional

Estamos no ano 2013. Século XXI. Gabamos-nos de evolução tecnológica, de evolução cultural, de evolução comportamental, de evolução do pensamento e da acção.
Porém, no ano 2013, em pleno século XXI, há questões sujeitas a debate completamente desadequadas da realidade social que vivemos. Desadequadas porque deixaram, há muito, de ser questões. São factos. Situações reais, de pessoas reais, com as quais já tivemos muito tempo para aprender a lidar.
Não podemos gabar-nos de evolução, quando praticamos repressão comportamental ou repressão sentimental, sobre os nossos pares. É ridículo.
Em sociedade devem e têm de existir regras, leis e direitos estabelecidos para todos os cidadãos. É a forma lógica de manter o ordem, e manter 'uma máquina bem oleada'. Faz sentido. Porém, é absolutamente descabida a tentativa de exercer controlo sobre os sentimentos de cada ser humano, sobre as suas decisões familiares, sobre as suas escolhas de parceiro, sobre as suas decisões de maternidade ou paternidade.
Fala-se muito em liberdade de escolha ou de expressão. Gaba-se essa liberdade, que se vive no ano 2013.
Essa liberdade não chega a todos. É condicionada por factores humanos quando não nos enquadramos no moralmente desejável, ou fugimos ao politicamente correcto.

Eu não posso apaixonar-me por uma mulher, casar e construir uma família com ela, sem que a sociedade evoluída do século XXI me olhe pelo canto do olho, enojada e incrédula, sem motivo válido.
Se eu me apaixonar por uma mulher e puder casar-me com ela, não posso adoptar uma criança, embora as crianças abandonadas se amontoem todos os dias. É preferível que as crianças órfãs permanecem no sistema, nas casas de acolhimento, muitas vezes mal tratadas e sem condições ou atenção necessária, do que viverem comigo e outra mulher. Poderíamos influenciá-la negativamente, pegar-lhe a 'fufice' – perdoem-me a linguagem – ou seria um trauma para o nosso filho porque as outras crianças com quem convivessem na escola iriam massacrá-lo por não ter uma família convencional. (As outras crianças ou os pais desses filhos???)

Eu não posso engravidar, por acidente, por ter sido violada, porque aconteceu, e abortar o feto que ainda não se desenvolveu dentro de mim.
Se eu estiver grávida, doente, de um feto que vai nascer anencéfalo e morrer horas depois de sair de dentro de mim, correndo eu própria o risco de morrer durante o parto, não posso abortar. É crime e posso ir presa por cinquenta anos.

Com tantos problemas no mundo perdemos tempo de vida a debater estas questões. Perdemos tempo a impor leis que violam as decisões pessoais e escolhas individuais de cada ser humano. Vidas que em nada influenciam as nossas, mas que teimamos, em 2013, pleno século XXI, em controlar e moldar a um pensamento que gabamos ser evoluído, mas não faz mais que reprimir a essência de cada um.
Se a nossa liberdade termina quando começa a dos outros, não deveríamos intrometer-nos naquilo que não nos diz respeito.
Não passamos a vida a dizer que 'a vida de cada um, pertence a cada qual'?

Parece que em 2013, século XXI, globalmente, somos a vizinha do lado, no bairro mais pequeno do mundo, que insistentemente, se intromete na nossa vida e tenta tomar todas as decisões por nós.

Há fome, há miséria, há pobreza, há guerra, há corrupção, há abandono, há crimes contra a vida, há aquecimento global, há um mundo inteiro de problemas de verdade à procura de solução. E esses sim, afectam-nos enquanto sociedade.

Em 2013, século XXI, deixem-me ser livre, ser dona de mim. É o que me resta, tudo o resto já foi levado, decidido e programado por este estado global perdido.

Não nos tirem cada um de nós.
Sejam evolução.

Duas vidas resumidas num pedaço de cartão

'O desespero de um jovem casal'

É do Correio da Manhã, esta imagem.
Mostra-nos um casal, sentado no degrau de uma casa, no Chiado, em Lisboa, com uma mala de roupa e dois corações em desespero, que pede ajuda, uma esmola, algo para comer. Perderam a casa e não usam drogas. Obrigado.
Este país não é para novos. Esta é a frase que ecoa na minha cabeça todos os dias, a todas as horas, em todos os minutos, a cada segundo. Alta e a bom som. Palavras gritadas com a certeza de quem vê no futuro apenas o incerto.

ESTE PAÍS NÃO É PARA NOVOS.
ESTE PAÍS NÃO É PARA NOVOS.
ESTE PAÍS NÃO É PARA NOVOS.

Por baixo desta imagem, podem ler-se vários comentários. Quero destacar dois.

'Agora venham fazer comentários que os governantes é que são culpados,mas quando estavam vivendo acima das possibilidades ninguém criticava os governantes,tenho pena nenhuma, são 80% da população queriam ter vida de luxo'

'Não entendo as pessoas de hoje em dia não lutam para sobreviver,culpam o governo e sentam-se à espera de um milagre,os idosos ainda compreendo mas gente jovem não dá para entender.'

Nesta imagem estão dois jovens. Um casal. Procuraram ser independentes, trabalhar, responsabilizar-se por si mesmos. Dois jovens. Um casal. Perderam a casa. O tecto que os abrigava e protegia. O tecto que certamente, se esforçavam por manter. Ninguém quer perder o seu abrigo. Nenhum jovem, nenhum casal, quer perder a sua casa. Ninguém, acabado de entrar no mundo da gente grande, da procura de emprego e da luta diária por fazer chegar o pão à mesa, quer sentar-se num degrau da casa de alguém, a pedir esmola para ter como sobreviver.
Ninguém, desta minha geração, teve uma remota possibilidade de viver acima 'das possibilidades', afogar-se em créditos ao consumo ou crédito à habitação. Quando nós chegámos, foi este país que encontrámos. Foi isto que estava à nossa espera. É aqui que acordamos. É nesta realidade que respiramos todos os dias, alguns com uma corda ao pescoço, que se vai apertando e que nunca tiveram oportunidade de perceber como lá foi colocada.
Nada nos chega de mão beijada. Nada nos chega, ponto final.
Corremos. Agarramos tudo o que aparece. Subvalorizamos o nosso saber e a nossa educação. Menosprezamos as nossas necessidades básicas e o nosso bem-estar. Vendemos-nos por meia dúzia de cêntimos, em prol de uma sociedade que nada nos deu, e quer, a todo o custo, a tirar-nos aquilo que sobra: a nossa dignidade.
Vendemos-nos a troco de nada e com a única certeza de nada ser certo.
As nossas vidas não são de futuro, são de cada dia. Sobrevivemos, lutando mais do que alguma vez se lutou, sendo o nosso objectivo tão pequeno, tão simples: Sobrevivemos porque queremos ser, um dia, os sobreviventes.

Eu não acredito em milagres. Se acreditasse, diria que um milagre é, por entre ignorância, falta de oportunidade, miséria e injustiça, neste país em que somos bastardos, conseguirmos acreditar em nós todos os dias, ao abrir os olhos pela manhã, e respirar antes de mais um dia de luta.

Discretos contrastes

No caminho para casa, encontrei uma varredora de rua.
Dei por mim a pensar.

Aquela senhora, empregada pela câmara municipal ou pela junta de freguesia, não sei, tem um contrato de trabalho sem termo, e um salário fixo consideravelmente superior ao meu.
Aquela senhora é beneficiária daquele sistema da ADSE e de uma série de outras regalias, exclusivas dos trabalhadores do Estado. Aqueles que trabalham das 9h às 5h. Os que tomam o pequeno-almoço das 9h30 às 10h00 e param para fumar um cigarro às 11h15. Os tais que almoçam das 12h00 às 13h30, e que vão lanchar por volta das 15h15. Os mesmos que, por volta das 16h30 param para fumar o último cigarro, e logo em seguida começam a arrumar as tralhas, porque às 17h há que correr até casa.

De onde eu venho, a coisa é ligeiramente diferente.
Entra-se às 09h, preferencialmente 10 minutos antes, para preparar o posto de trabalho. Às 9h10 convém fazer uma pausa, porque pouco depois, o telefone já não pára e já não há pausas para ninguém. Entre as 13h e as 14h é hora de refeição. Das 14h às 18h ainda há tempo para mais uma pausa, cronometrada ao segundo e dependente, sempre, das pausas dos outros colegas. Às 18h é hora de sair, preferencialmente 10 minutos depois, para terminar um último assunto e desligar tudo no posto de trabalho.
Não há regalias. Não há contrato sem termo. Não há segurança. E todos os meses, o salário fixo transforma-se em variável.

Pus-me a pensar.

Aquela senhora, varredora de rua, tem o nono ano. A 'escolaridade obrigatória'. Não estudou, talvez por falta de oportunidade ou de interesse, não é importante.
Tem os direitos dela, adquiridos de forma justificada, e eu em nada me oponho e nada tenho contra isso.

Eu estudei, tive oportunidade e um interesse ávido. Não é importante. Não tenho direitos, regalias, nem perspectivas de crescimento na empresa que integro, embora seja intelectualmente e academicamente superior à grande maioria. Eu e mais não sei quantas mil pessoas, que são subvalorizadas diariamente nas suas posições, nas suas empresas. E mais outras tantas, que enchem as ruas e os centros de emprego.

A verdade é que preferia ser funcionária pública. Ou estúpida... burrinha, vá! Ou pessoa que receasse represálias como se ainda fosse 1973...

Preferia ser menos burguesa, e mais contentada.

(Mentira!)

O Castelo

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