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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

X

Ele saiu e eu acendi um cigarro.
Ainda sentia o cheiro dele. Mordi o meu lábio inferior. Que final de tarde alucinante.

Conhecemo-nos uma semana antes, por acaso, e houve de imediato uma qualquer empatia entre nós. Não trocámos contactos. Não procurávamos absolutamente nada mas reconhecemos no outro o prazer secreto de uma realidade que poderia ser só nossa.

'Nem imaginas como quero lamber-te.' Sussurrou-me, entre um beijo no pescoço e uma trinca na orelha. E eu senti-me humedecer de imediato.
Que raio de homem era aquele que conseguia comandar o meu corpo, sem nunca o ter conhecido? Não me importava, na realidade.

Não sabia ser sensual junto a ele. Fazia-me sentir demasiado pequenina. Recordava-me o frio na barriga, as borboletas no estômago...fazia-me contorcer com a mera expectativa do seu toque nada suave, nada delicado.

Mas ele sabia que eu gostava daquela violência.

Foda-se... Queria vir-me imensamente perdida naquela boca, naquelas mãos, naquele sexo.

Beijei-lhe a ponta do sexo e provoquei-o com a língua. Afastei os meus cabelos para que me observasse enquanto o chupava com deleite. De vez em quando abria os olhos. Gostava de o observar, deliciado com a minha boca. E quando me devolvia o olhar, engolia-o na minha garganta. Ouvi-lo gemer, enquanto o seu corpo reagia, fez-me sentir que recuperava algum poder.
Aquela vulnerabilidade que sentia junto a si, não me era familiar e ainda estava a aprender a lidar com ela. E tê-lo na minha cama, completamente nu, erecto, a pedir a minha boca sempre que eu fingia parar, fazia regressar a minha zona de conforto.

Veio-se na minha boca, abundante, e de uma forma que me surpreendeu, por não estranhar.

'Quero retribuir o favor.'

Continuava molhada.

'Quero tanto beijar-te' Foi o que fiz. Queria arranhar-lhe a pele, chupar-lhe os mamilos, morder-lhe o corpo e senti-lo dentro de mim. Queria que me puxasse o cabelo, me segurasse as mãos, me lambesse, me agarrasse com força e se enterrasse em mim.
Queria sexo. Sujo. Puro. De estourar com o Mundo. Sexo.

Ele saiu e eu acendi um cigarro.
Ainda sentia o seu cheiro. Mordi o meu lábio inferior. Que final de tarde alucinante!

'As pessoas que falam sobre o suicídio não vão realmente cometê-lo'

Hoje vais chegar a casa e eu vou estar morta. Sim, amor, morta. Esta vida que me mata aos poucos, vai sugar-se de uma vez e descobrirás que se foi o meu último suspiro. Vou estar morta como podre está este nosso mundo. Sabes amor, começo a ver-nos como fonte. Cada ser humano, uma fonte. Em vez de água, sentimentos. Em vez de água, acontecimentos. Mas como a água, aos poucos, vapor. E amor, quando se evaporam as sensações, o que é que resta? Uma casca, amor. Resta uma casca vazia de tudo, com a fragilidade da carne cortada pela lâmina afiada. Casca. E a casca é dura. A casca não sente. A casca de nada serve e tem de ser quebrada. Não se pode ser uma casca que ocupa o espaço de uma fonte que ainda pode jorrar sentimentos. Não quero ser essa casca, amor. Não quero ser a casca que ocupa o teu espaço. A casca que te rouba o sentimento.

A casca deve ser quebrada. É só uma casca, amor. Não serve de nada porque já secou. Não tenhas medo. Não sintas ângustia. Estou bem, agora que percebi como a vida funciona. Não servimos para nada, mas serviremos sempre o propósito de alguém. A vida é como a liberdade, amor. A liberdade não pode em nenhuma circunstância interferir com a própria liberdade. E a vida também não.

'Em memória de S.' Amor, quero uma daquelas pedras brancas, perfeitamente brancas, com essas letras escritas a cor preta. O dourado fere a vista quando o sol bate, e eu não quero ser uma memória ferida. Prometes, amor? Podes ser tu a escolher o desenho das palavras escritas, pode ser um rabisco, como uma daquelas folhas de papel onde costumávamos aliviar os pensamentos. Ou outra coisa qualquer. Escolhe tu, amor. Escolhe também uma memória bonita, por favor. Quero ser uma memória bonita.

Não quero que perguntes porquê. Não quero que sintas culpa, ou que poderia haver outro caminho. Não peço que entendas hoje, amor. Na verdade, nem espero que entendas um dia. Desejo ardentemente, que nunca o compreendas, por continuar a amar-te.

Lembras-te quando me cortei no outro dia e me encontraste com o dedo a sangrar debaixo de agua fria? Foi nesse momento que percebi. Não viste, não sentiste. Estavas demasiado preocupado para veres o que se passava realmente. Foi nesse dia que descobri a casca, amor. A casca dura sem dor. Quando não há dor, não resta mais nada.

Lavei a tua roupa. Está a secar no estendal da varanda. Por favor, recolhe-a, quando chegares. Fiz sopa. Aquela com a courgette e o alho francês que tu gostas tanto. Está a arrefecer no tupperware em cima da bancada da cozinha. Também comprei iogurtes e o queijo da vaca que ri, para que tomes um bom pequeno-almoço. Há carne no congelador, e uma posta de salmão temperada, no frigorífico que podes fazer no forno. Preparei as rodelas de beringela, recheadas com molho de tomate. Basta colocar no forno. Antes ou depois do salmão, como preferires. As caixas que viste no hall de entrada têm a minha roupa. Entrega-a, por favor, onde possa ser útil.

Comprei uma faca de cozinha nova. Daquelas de cabo de madeira, como preferimos. Está na gaveta juntamente com os talheres. Compreendes que devo utilizar a que já temos, por ser a única que faz um corte decente.

Tirei o cortinado da banheira. Sabes que é o meu preferido e gostava que não se estragasse. Está meio cheia de água quente, amor, e vou entrar porque não quero que arrefeça. Achei mais fácil desta forma, para o sangue não secar na louça.

Vou despedir-me agora, amor. Vi as nossas fotografias, pela última vez. Não reconheço aquela rapariga do teu lado, amor. Casca. É a única coisa em que existo.

Vou morrer agora, amor.

Quero ser uma memória bonita, por favor.

Vamos falar de dinheiro.

Hoje apetece-me falar sobre dinheiro. Bom, não será falar. E, a ser sincera, não sei se apetecer será a palavra certa.

Eu e o dinheiro não temos uma boa relação. A verdade, é que nunca fomos muito próximos e talvez por esse motivo, a nossa relação não tenha evoluído da melhor forma. Por norma, difícilmente na minha carteira se encontram mais do que uma ou duas moedas. E, as que lá se encontram, têm um valor igual ou inferior a cinquenta cêntimos. Uma em cada cem vezes, são capazes de encontrar-me com vinte euros no bolso. Quando me parece que as compras do Pingo Doce terão um valor inferior a esse. Isto é facto.

Sou utilizadora confessa do dinheiro de brincar. Chamo dinheiro de brincar àquele que está distribuído pelos cartões do banco. É um dinheiro que existe apenas virtualmente, que transaciono entre empresas sem nunca lhe chegar a pôr as mãos em cima.

Minto. Apercebo-me agora que existem outras alturas em que tenho dinheiro, físico, na minha carteira. É quando estou no Alentejo. Há duas caixas multibanco no Vimieiro (por sinal, as únicas que me dão notas de cinco), e não existem terminais de pagamento nos cafés, restaurantes ou minimercados. Ainda me lembro do quanto fiquei feliz quando a minha cabeleireira de sempre anunciou que passaria a receber pagamentos via multibanco. Devemos ter ficado as duas, até porque 80% das vezes em que ia cortar o cabelo, o pagamento acabava por ser feito vários dias, se não semanas, depois. Esquecia-me sempre de levantar dinheiro, e era a minha mãe que lá passava depois para pagar. Uma vergonha, eu sei. Já na depilação, a mesma coisa. A minha sorte foi sempre a sorte de quem se conhece das terras pequenas, aquela confiança entre todos.

Mas estou a divagar.

O pensamento deste texto é mesmo simples. Não ligo muito a dinheiro. E isso não é, necessariamente, uma coisa boa. Mas também não é má. Sou uma pessoa consumista, na mesma medida em que todos os somos, foi assim que crescemos. Gosto de consumir determinadas coisas, e gastar dinheiro nessas coisas, dá-me realmente prazer. Todos gostamos e quem o negar, mente a si mesmo. Felizmente, melhor ou pior, a carteira vai-se gerindo de acordo com essas necessidades de consumo. Por outro lado, é-me indiferente chegar a dia vinte de cada mês com duzentos euros na conta, ou com dez. A verdade é esta, e sim, este é provavelmente o lado que não é necessarimente 'uma coisa' boa.

Há obrigações financeiras das quais obrigatoriamente (perdoem a redundância) não podemos escapar-nos. Isto quando decidimos dar-nos ao luxo de manter uma determinada independência, na nossa jovem idade adulta. Renda de casa, luz, gás (isto lembra-me que está na altura de mandar vir nova garrafa), água, e o pacote de tv+net+telefone+(agora)telemóvel que passou a fazer parte dos essenciais. Depois, no meu caso (e dos restantes filhos do êxodo rural), uma ou duas visitas por mês à vila/aldeia dos pais, restante família e amigos de sempre. E o passe, não esquecer o passe, necessário a quase todas as formigas da cidade. Estas são as 'dívidas' a honrar todos os meses. Algumas de dois em dois meses, se escolhermos factura bimestral. Respondidos estes compromissos, posso respirar de alívio. Não sobra muito, e aparece sempre uma novidade qualquer com a qual tem de se cumprir, uma ida ao médico, uma torneira que se parte, um microondas que avariou, enfim... É comum, e uma pessoa habitua-se a isso. Significa apenas, que sobra ainda menos um bocadinho.

Eu não consigo levar o dinheiro muito a sério. O sítio onde escolhi viver, a forma como escolhi viver, mas sobretudo, a idade e época em que não escolhi viver, não me permite levar o dinheiro muito a sério. Porque ele não existe fisicamente. Sei que existe, única e exclusivamente, porque sinto a água a aquecer todas as manhãs, porque quando anoitece continuo a ver dia em casa, porque na minha televisão vejo a sic notícias, e porque quando digito números no telemóvel, consigo falar com alguém do outro lado da linha. Esta é a verdade. Mas não consigo levar esse acreditar em notas e moedas, demasiado a sério. Ou tão a sério, como a maioria das pessoas considerará o mais correcto. Concluí já há alguns anos, e nada mais a vida faz do que confirmar-mo, que 'amealhar' é apenas um conceito que conheço da Língua Portuguesa. Conheço o seu significado, mas ainda não tive a oportunidade de vê-lo na prática. A precariedade do meu contrato de trabalho, do meu vencimento, que continua a ser promovida e incentivada pelas grandes empresas como aquela a quem presto serviço, não me permite qualquer margem de manobra para construir uma base sólida, financeiramente sustentável, para o meu futuro. Simplesmente não é possível. Esta ideia, que pode parecer absurda para muita gente, é a mais pura realidade não só para mim, mas para qualquer jovem que, como eu, esteja disposto a sobreviver na sua independência, por oposição a viver da dependência de pais ou outros familiares. E, vamos lá, sobreviver na independência, ainda se torna mais complicado na cidade. Isto não são queixas ou choraminguices. Mais uma vez, é a constatação de um facto.

Então, eu não valorizo o dinheiro, porque nunca chega a ser meu. Porque não me vale de nada. Não me ajuda a construir nada. É mesmo assim. Sou perfeitamente capaz de o trocar por um sorriso. Um sorriso de qualquer pessoa que me pareça necessitar de qualquer coisa mais do que a mim me faça falta. Consegui, por exemplo, influenciar (instruir, até) quem me é próximo a fazer uma coisa tão simples como parar na rua e ouvir um pedido de ajuda de alguém em necessidade. A contribuir, por exemplo, para as recolhas de alimentos, ou a comprar aquele porta-chaves inútil cujo valor no dizem que irá reverter-se em apoios para doentes crónicos, ou crianças órfãs.

Se eu não consigo amealhar, então prefiro partilhar, distribuir.

Não, não serei o expoente da virtude e solidariedade, nem aspiro a tal. Prefiro é, desvalorizando o pouco que tenho, e que nunca é verdadeiramente meu, utilizá-lo no presente, em meu benefício e dos que me rodeiam. Faz-me tão feliz ver aquele sorriso estampado na cara de alguém que acabei de ajudar de alguma forma, como me faz feliz, comprar aquele livro ou aquela peça de roupa que andei a namorar quando passei na Baixa no outro dia.

Como já referir num outro texto neste blog (que honestamente poderia ir procurar e linkar, mas não é importante e também não me apetece), a este país em que vivo, posso agradecer a castração forçada ao sair da faculdade. E as lambadas (sempre adorei esta palavra, à excepção de quando era utilizada pela minha mãe para, simpaticamente, me oferecer uma) épicas que o dia-a-dia de sobrevivência independente me tem dado no focinho (sim, eu escrevi focinho, que rude da minha parte), ensinam-me que o bem-estar tem de existir no presente, com o futuro a ser constantemente um ponto de interrogação com garantias de absolutamente nada. Nada, meus amigos, não é melhor do que pouco, ao contrário do que nos fazem acreditar. E pouco, é aquilo que tenho agora.

Assim, eu vivo numa sociedade consumista. Vivo numa sociedade precária, com dinheiro de brincar, que nunca chega a pertencer-me. E consumo, continuo a consumir à minha maneira, o tipo de bens não essenciais que me dão prazer consumir, por ser a única pequena escolha que posso escolher. E é muito mais fácil sobreviver independente e castrada, se tiver aquele livro que eu queria tanto comprar.

Nota da Directora!

Hoje acordei a pensar nisto de ter um blog. De ter um espaço público, de acesso de todos os cantos e a todas as pessoas, a quem permito participar e conhecer todo o tipo de devaneio/opinião/pensamento (chamemos-lhe o que quisermos) que passa pela minha cabeça. Acordei a pensar nisto por volta das sete horas da manhã. Sim, sete horas da manhã. A hora em que toca o primeiro despertador em minha casa. E tentei sossegar a mente. Colocar de lado os pensamentos, por me parecer demasiado cedo e estar demasiado preguiçosa para de imediato abandonar o conforto da cama e sentar-me ao computador.

O resultado dessa preguiça foi que, muitas das considerações filosóficas que se concluíram na minha lógica, acabaram perdidas na meia hora seguinte de um sono mal dormido. Bonito serviço!

Já vos aconteceu? Comigo, verifica-se numa frequência brutal. Pela noite dentro e durante a madrugada, arrasto-me várias vezes à casa-de-banho. Julgo que poderia passar vinte e quatro horas sem beber líquidos, que ainda assim, atravessaria o corredor umas quantas vezes por noite. Mas o que queria dizer é que, nesses escassos minutos em que estou ainda meio adormecida e, à partida, não acordo totalmente, ocorrem-me mil e um assuntos, mil e uma temáticas que me despertam interesse e sobre as quais tiro alguma espécie de conclusão naquele momento. De todas essas vezes, me chicoteio emocionalmente porque deveria parar e tirar notas. Já adivinho que no dia seguinte não me vai restar memória do sucedido, mas sou demasiado preguiçosa para me atrever a distrair-me com papel e caneta às três da madrugada (ou às duas, quatro, cinco, seis...). Bem, neste caso, desculpabilizo-me com a minha leveza de sono e o facto de não querer correr o risco de despertar para não dormir mais.

A sério, já vos aconteceu?

Tenho a sensação de que as minhas conclusões mais inteligentes me passam ao lado, por causa desta preguiça associada à falta de memória das madrugadas na casa-de-banho.

Que parvoíce.

Mas toda esta conversa tinha um propósito. Ainda tem, se é que pode salvar-se algo desta súbita verborreia.

Recentemente disseram-me que este blog está a tornar-se aborrecido. Que a minha forma de escrever é aborrecida. Como em maçadora e repetitiva. A pessoa em causa baseou o seu (forte) argumento nos últimos textos publicados. A temática envolvente. O facto de escrever sobre relações, histórias de 'amor', dramas emocionais trágicos e profundos, etc... vocês, minha meia dúzia de preciosos acompanhantes de pensamentos, sabem perfeitamente do que se trata. Afinal de contas, continuam a passar a vista por aqui. (Muito agradecida, a propósito!).

É capaz de ter razão, no entanto, eu defendi-me com um vigoroso 'É sobre o que eu sei escrever!'. Sim, melhor do que este argumento, só mesmo se tivesse devolvido um 'Tu é que és!'. Mas, efectivamente, talvez tenha razão. Talvez se torne aborrecido, para quem, por algum misterioso motivo se habituou a vir aqui, encontrar sempre o mesmo género, ler sempre um ou outro pseudo-conto, cuja temática gira à volta do mesmo.

À partida, este é um espaço generalista, eclético na sua essência, tal como a sua autora se auto-intitula. Só que isto de escrever tem muito que ver com o estado de espírito, os períodos que se atravessam e a sensibilidade de uma forma geral. Pelo menos para mim. Predisposição. Este será provavelmente um dos mais ecléticos conceitos. Um dos mais generalistas. E a verdade é que, depois de algum tempo incapaz de tentar um género mais literário, resolvi tentar. Ir tentanto, testando e desbravando caminhos aos poucos. Barreiras que pareciam existir, mas só na minha cabeça. É apenas e só desta forma, que consigo explicar os textos mais recentes. Caso mais alguém precise de explicação, ou se sinta desiludido de alguma forma com este caminho que estamos, de momento, a seguir.

Depois, há outro factor importante. Um bastante mais prático e fácil de explicar. Neste momento sinto-me profundamente aborrecida com tudo o que se vai passando neste país, nesta sociedade, neste mundo que habitamos. Com tudo o que tem sido notícia, digo. Estou cansada de miúdos a morrer em acidentes, de adultos a matarem-se, de mundiais de futebol, de politiquices que o povo continua a deixar acontecer. Estou cansada de ver sempre as mesmas notícias, contadas da mesma forma, e comentadas de igual maneira. Não existe diversidade, não existe o novo. Na realidade, do meu ponto de vista, falta a notícia. A verdadeira notícia. Essa parece ter-se perdido. Estou realmente aborrecida e não tenho nada a dizer sobre o igual que vai acontecendo todos os dias.

Este aborrecimento tem nome. É inércia. A inércia de todos nós perante a sociedade que se desenrola à nossa frente. A inércia da estupidez e pela estupidez que fomentamos diariamente.

Estou realmente aborrecida com o mundo em que vivo, pela falta de oportunidades que não temos mas que não lutamos por criar. Pela desumanização que me rodeia.

Aborrecida de morte.

E bem, por tudo isto (não foi assim tanto), talvez me torne aborrecida a escrever 'sobre o mesmo', talvez seja incapaz de escrever um conto com um final feliz (ainda vou tentar, prometo), talvez não volta (brevemente) a comentar a actualidade (há demasiados comentadores neste país), talvez deixe de lado as crónicas (por uns tempos), mas prometo que não páro de escrever. Para a maioria de vós, pode não ser ao gosto, pode não encher-vos as medidas, mas isso não muda quem sou. Não me vejam de forma diferente.

E depois, se fizerem questão, se quiserem muito, usem do endereço de email do blog. Partilhem as vossas opiniões e se houver um tema que vos interesse, farei o meu melhor para escrever sobre ele. Para comentar, criticar, confortar. Enfim...o que for necessário.

Cru

Ele encurralou-me no caminho para a casa-de-banho.
'Não disseste que querias magoá-lo a sério?' Tinha o braço estendido a impedir-me o caminho. Fitei-o, surpresa por ter-me seguido e descobri-lhe um brilho negro, de maldade pura, no olhar.
Os meus lábios rasgaram-se num sorriso irónico.
'O conceito de lealdade masculina, está ultrapassado?'
Sorriu-me de volta, sem que se lhe alterasse o olhar. Emanava dele um estranho magnetismo, que o tornava irresistível naquele momento. Contorci-me ligeiramente, e ele percebeu que me ganhara.
Aproximou o corpo do meu.
'Para a minha casa?'
Recuperei o raciocínio. Nada disso.
'Para a minha. Daqui a meia hora. Encontramos-nos lá.' Obriguei-o a afastar-se e entrei na casa-de-banho. Olhei o meu reflexo no espelho e procurei justificar o que estava prestes a acontecer.
Okay miúda, odeias este tipo. Acabaste de dizer-lhe que é detestável nem há uma hora atrás, como é possível que vás enfiá-lo na tua cama?
Encolhi os ombros. Não havia volta a dar. Sabia que aquela noite me daria um importante trunfo, que viria a jogar mais tarde ou mais cedo, juntamente com a minha dignidade. A minha dignidade não me importava.
No quarto, despimo-nos com urgência, sem palavras, sem afectos. Empurrou-me para cima da cama com alguma violência, e pressionou o seu corpo contra o meu. As suas mãos experientes seguraram as minhas acima da cabeça, enquanto percorria o meu pescoço com a língua. Senti um arrepio na espinha. Tentei soltar-me, sem sucesso. Senti a sua erecção colada na minhas cuecas, e apercebi-me do quão grande era. Surpreendi-me. Consegui esquivar-me e as nossas posições inverteram-se. Estiquei a mão e tirei um preservativo de cima da mesa de cabeceira. Estendi-lho. Sorriu-me.
'Não. Coloca tu.'

Senti-me ruborizar. Nunca tinha colocado um preservativo a ninguém, mas não estava disposta a vacilar. Durante a breve operação, perante a sua enormidade, recordei-me estupidamente da ex-namorada dele que era virgem quando começaram a namorar.

 Voltou a colocar-me debaixo de si. Consciente do seu tamanho, do meu tamanho, e das próprias circunstâncias, desceu até ao meu sexo. Deixei-me perder na sua boca. Fez-me vir uma e outra vez, preparando-me para o receber dentro de mim. Ainda assim, quando entrou, não consegui segurar um pequeno grito de dor.
O sexo foi mecânico. Uma troca de favores. A minha mente vagueou em alguns momentos, trazida de volta ao momento pela força dele a rasgar a minha pele.
Sexo sem amor, é comum. É bom. É livre. 
Sexo por vingança, é sexo.
Sexo com o Daniel, foi demasiado seco.
Olhou-se no espelho da madrugada, e o que mais a assustou não foi o eyeliner meio esborratado, reflexo da noite excessiva.
O que a assustou foi ter-se reconhecido naquela pele. Ver aquela figura, brutalmente maquilhada, de vestido curto e botas altas.
Mais do que a roupa, que poderia ser um disfarce, uma máscara reles, absolutamente irrelevante na sua personalidade à luz do dia, reconheceu aquela figura de olhos esbugalhados do outro lado do espelho, de aspecto tão vulgar, como a sua verdadeira essência.
Pela primeira vez, viu-se pelo que era. Pelo que é. Toda aquela conversa sobre crescimento, desenvolvimento, amadurecimento.
Todos os anos de intitulada auto descoberta culminaram naquele momento em que percebeu que se tornara adulta. Infelizmente, não da forma como esperava que acontecesse. Não a pessoa que desejara, que piamente acreditara, que haveria de tornar-se.
Passou a mão pelo cabelo, como quem diz 'Então e agora?'. 
E no entanto, por mais desiludida que se sentisse naquele momento, com a extraordinária descoberta acerca de si, sentia simultaneamente uma inesperada paz, que lhe enchia o peito.
Todo aquele tempo à procura de si própria, acreditando que um dia iria acordar e ser a mulher responsável e ponderada que todos esperavam. Sorria. Quanta ingenuidade! 
E com um esgar de tristeza, constatou: Algumas pessoas pura e simplesmente não prestam. Encolheu os ombros. 
Nunca faria parte dos bons.

Espelho

Por vezes queremos falar, desabafar por entre linhas que nos saem da boca em forma de palavras e frases que até pouco se relacionam com o que está realmente naquilo que designámos ser a alma. Por vezes queremos conforto. Aquele conforto que entende a verdade mascarada pelas palavras debitadas incessantes e com pouca lógica ou sentido. Por vezes queremos estar. Aquele estar que já é o desabafo, no tal conforto, que o entende imediatamente dessa forma.

 

Por vezes queremos parar. Cair. Ou queremos girar. Girar como loucos. Fechar os olhos à multidão, sabendo-a à volta do centro que somos nós. Um centro de massa mais ou menos gorda ou mais ou menos magra que desesperadamente procura exorcizar-nos a mente.

Por vezes queremos parar o pensamento. Não somos nós. É o pensamento.

A força mais forte do mundo não o é ao acaso. Não é uma aspiração. A força mais forte é uma conquista. Pode ser inspiração. Nunca idolatrada.

Antes de ser força, não o foi.

 

Por vezes faltam-nos as conclusões. Falta-nos o ar. Esquecemo-nos de ser protagonistas na vida que é a nossa. Há dias em que se olha à volta sem compreender o tempo o espaço. O tempo que já existiu e o espaço que se pisa.

Como é que se descobre uma pessoa?

 

Por vezes organizam-se espaços, por não se saber organizar o Ser.

Por vezes não falamos mais alto do que o rídiculo gritado pelas vozes na nossa cabeça.

 

Um dia ele acordou e não reconheceu no espelho a figura que o fitava. Voltou ao quarto e olhou a cama vazia. Relanceou as horas no despertador digital e descobriu-se sem sítio. Não sabia a pessoa que era e desconhecia como se encontrara ali. Não se lembrava daquele homem de cabelo farto e barba por fazer, que se chamava reflexo. Não tinha memória daquele quarto, daqueles móveis, daquela casa, daquele espelho.

Lembrava-se de adormecer. Sim, adormecera na noite anterior. Disso recordava-se perfeitamente. Deitar-se na cama e fechar os olhos, escutando a música que passava na rádio do costume. Sim, recordava-se perfeitamente. Mas o quarto não era aquele e a cama também não era aquela. E ali não havia música. Não havia rádio ou televisão. A vida não é um mau filme de pipoca e por isso, sabia-se não ter sido transportado para uma realidade alternativa ou um futuro distante estupidamente retorcido. Ainda assim, nada ao seu redor lhe pertencia e muito menos, aquela barba desleixada ou aquele mau corte de cabelo. E deu por si perplexo, cheio de admiração com a falta de reacção com que agia perante a estranheza de todo aquele cenário. Abismado e algo assustado, com a indiferença que parecia existir-lhe no peito ao contemplar aquela manhã surreal.

Que sensação era aquela que até se lhe chegava à boca? Amargura? Apatia? Inércia? Não podia ser. Nem se lembrava de conhecer tais sensações a não ser de conceito. Então por que motivo lhes pareciam a única realidade familiar no espaço em sua volta?

Voltou-se novamente para o espelho. Examinou com atenção aquele homem. Ali estava. Aquela cicatriz por cima do sobrolho. Reconhecia aquela cicatriz. Um colega de turma atirou-lhe uma pedra à cabeça durante uma briga de rapazes, no quarto ano. Levou cinco pontos e tiveram de o amarrar porque não deixava ninguém aproximar-se. Aquela cicatriz era sua. Então aquele homem, era ele? Aquela apatia, aquela amargura, aquela indiferença, pertenciam-lhe?

Adormeceu. Lembra-se de ter adormecido na noite anterior. Estava a ouvir música na rádio de sempre, a cabeça a mil porque tinha saído o resultado das candidaturas à universidade. O pensamento livre. Lembra-se de ter adormecido com o pensamento livre. Carregado de planos, de objectivos, vincados detalhadamente, e que nunca se tornariam sonhos ou frustrações sem concretização.

Sim, foi assim que adormeceu.

As rugas. A expressão abatida. Aquele ar derrotado. Quem lhos trouxe sem avisar?

O Castelo

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