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do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

do alto do meu castelo

Se não puder escrever sobre o que penso, sobre o que sinto, sobre a vida, sobre este mundo retorcido, cortem-me as mãos e, por via das dúvidas, cosam-me a boca. De outra forma, não vou calar-me! Só os loucos podem mudar o Mundo.

O dia em que o David morreu.

O dia em que nada mudou.

O David morreu. Tinha praticamente a minha idade. Os quase 30. Trinta que não lhe chegaram. Chegarão apenas em jeito de memória de quem o conhecia e amava.

Está muito errado este país. Este Portugal, o tal à beira mar plantado, que insiste em esquecer os seus, os que se foram e os que lhe serão. Está muito errado.

E assim permanecemos. Assim continuamos. Escolhendo os lamentos por vez da acção. Que raio interessa a demissão de médicos, ministros, pessoal da limpeza, quando o David já morreu? Em que mundo acreditamos quando uma solução que não foi viabilizade durante anos, em meia dúzia de horas surge qual salvador de uma pátria adormecida? Enquanto o David morria, e com ele um pouco de cada familiar, namorada e amigos, não havia respostas. Nada podia ser feito. Não houve equipa que lhe jurasse Hipócrates.

 

Que vergonha. Que hipocrisia alucinante. Porque a namorada do David escreveu uma carta. Porque existe facebook e essa carta tornou-se viral, ontem já todos conhecíamos o David. E hoje estava em toda a comunicação social. Então viram-se forçados a dar uma resposta. Danos colaterais. Esses foram os demissionários. Alimentar o povo com a ideia de uma punição que nunca terá lugar.

É que a podridão não está neste ou naquele cargo. A podridão está bem entranhada num sistema político que nada tem de social ou solidário. E lá continuará.

O David estará no meu pensamento durante meia dúzia de dias. Sinto-me indignada, ultrajada por este país que me deveria cuidar para que o cuide também. Mas a minha vida continuará a correr, a correr mesmo, e o meu umbigo voltará a estar cheio de mim e eu voltarei a entregar-me a ele.

O sistema, esse, continuará podre. Surpreendentemente podre. E a gerar danos colaterais que o justifiquem. 

A carne e os canhões. A areia e os olhos.

Marketing. Puro marketing.

E tu? Indignado e sentado no sofá.

Nada mudou.

E se eu o amava, o que raio podia fazer?

Há alguém a quem deves um pedido de desculpas. Há, sim. Há sempre alguém. Errar é-nos tão intrínseco como a própria respiração.

Provavelmente nunca te irás desculpar. A quem queres enganar? Com toda a certeza nunca te irás desculpar. O erro, o orgulho, a respiração. Intrínsecos. E tudo se resume ao amor. À intensidade com que amas, com que te perdes num amor que consomes. Um amor em que te queres arder.

Descobres-lhes a importância no momento em que te encontras. Fizeste o teu caminho. Trilhaste vidas, caçaste emoções, respiraste lágrimas, sobreviveste a murros no estômago. Encontraste-te. A ti que te buscaste incessantemente desde aquele instante que nem vive na tua memória, aquele instante em que choraste pela primeira vez. Tu sabes. Quando a tua mãe te pariu.

Enfim, o amor. Não tem tempo, ou prazo ou memória. O amor.

Amas porque te amas. Porque aprendeste a amar-te.

Orgulha-te, sem lamentos, das asneiras que te tomaram a vida. Orgulha-te das mágoas. Dos corações partidos. Orgulha-te dos porquês, dos para onde, dos que faço aqui. Dos quem sou. Orgulha-te do desespero de uma perda anunciada. Orgulha-te. Até do tempo que demoraste a perceber que o caminho às vezes faz-se para trás. Orgulha-te porque a tua estrada era tua e tu clamaste-a no teu momento.

Orgulha-te até desse pedido de desculpas que deves a alguém.

 

Quando te encontraste foste privilégio. És privilégio. O privilégio do amor. Ganhaste-lhe a manha, um segredo que não existe por sermos nós. Cada um de nós.

Orgulha-te por te teres conhecido.

Assim é o amor.

 

E se o amas, o que raio podes fazer senão amar?

 

Ho Ho Ho

Então é Natal... e eu gosto tanto do Natal! O cheiro, a comida, o frio, as luzes, o conforto, os presentes... Natal! A época (muito provavelmente) mais consumista do ano inteiro e à qual não conseguimos resistir. Essencialmente, porque a maioria de nós não está imune ao sentimento de obrigação da oferta da lembrança, do presente caro, do amigo secreto, etc.

No que a mim toca, a postura relativamente a compras de Natal rege-se de forma simples: Gosto de alguém. Descubro algo que vai fazer esse alguém sorrir. Posso conseguir/proporcionar/adquirir esse algo. Está feito. Não tem a ver com 'conheço esta pessoa desde sempre', ou 'ele(a) oferece sempre qualquer coisinha', ou 'é família, portanto tem mesmo de ser'. Se não tiver qualquer tipo de significado, não tem qualquer valor. E também não há qualquer valor que possa acrescentar algum tipo de significado. E estou perfeitamente a borrifar-me para se vou receber algo em troca ou não! Recebo sempre o mais importante. O sorriso verdadeiro de quem me diz muito e é tão especial.

Seja como for, não era sobre isto que queria falar.

Escrevo este texto com a Puma ao meu colo, a ronronar. Mal consigo ver as teclas porque a cauda dela anda aqui de uma lado para o outro. O Natal é muito este amor. No meio de tradições perdidas, de ficções, de religiões, de criatividade, de marketing e publicidade, o Natal é isto. É amor. Não amo mais a 24 de Dezembro do que noutro dia do ano. Nada disso. Mas na noite de 24 de Dezembro, o meu coração transborda de amor por estarmos juntos mais um ano, mais uma noite, apesar das dificuldades, dos desentendimentos, das parvoíces, da distância e dos desencontros. É Natal, e não há desculpas que nos afastem. Contam-se as mesmas histórias de família, fazem-se as mesmas piadas desconfortáveis, vêem-se os mesmos filmes, comem-se os mesmos pratos, riem-se os mesmos risos das tais histórias que se repetem há anos, e estamos juntos. Estamos juntos na certeza de que, por uma noite, permanecemos iguais. E isto é Natal. Amor. Família. Amor.

Que se lixe quem me diga o contrário! 

Temos bacalhau cozido, couves e batatas. A mãe faz aletria doce, que eu sempre peço. A mousse de chocolate de verdade que o mano e o avô Zé gostam, o arroz doce da Avó Maria que nos vê lá de cima, e se ele se tiver portado bem, até faz a baba de camelo para o pai João. A mana come de tudo porque é uma gulosa. E a tia Maria é responsável pela Bûche de Noel, que ela esteve emigrada e é a especialista do tronco.

E, à meia noite abrimos as prendas. O mano oferece chocolates (eu acho que ele é demasiado preguiçoso para escolher outras coisas!) e encontra forma de queixar-se de um ou outro presente que recebe (costuma calhar-me a mim). A tia esconde sempre uma surpresa no saco da prenda principal. A mãe diz que foi ela que comprou as prendas enquanto o pai João insiste que são dos dois. A mais nova é uma abusada e, se por um lado, não se queixa dos chocolates do irmão, três meses antes do Natal começa a massacrar-me com pedidos e mais pedidos. O avô Zé vai rindo e bebendo um copinho enquanto o filho lhe diz que já bebeu demais e a nora o quer empanturrar com mais comida. E conversa continua, e a mãe come mais um doce, o pai João deixa três ou quatro presentes por abrir, e nós continuamos a rir.

Eu gosto do Natal. E este Natal é muito meu. Que não se perca este Natal. Que me aquece, que me conforta, que me dá força, que me ama, que me lembra de amar, um ano inteiro.

 

Feliz Natal. E que se sintam tão afortunados como eu. As pessoas, sempre as pessoas. 

 

 

...

Para mim é como se ela tivesse morrido e eu sobrevivo na sua morte.

Foi uma daquelas mortes repentinas que nos mata de surpresa e de morte.

Sim, ela morreu. E eu faço-lhe o luto todos os dias. Sobrevivo ao pedaço de mim que morreu, e à alma morta que lhe descobri.

Sim, ela morreu. Morreu-me tão repentina, tão estúpida, tão pequenina. Esperava-lhe mais. 

O luto é um monstro. Transforma, corrói. Faço-lhe o luto todos os dias. 

Perdoo-lhe a ignorância de me ter morrido, ainda que não lhe perdoe a sua morte. Esperava-lhe mais.

Ela morreu. E eu repito todos os dias e todos os dias me dói. Sim, ela morreu-me. 

A morte não tem cura. 

 

Perdoo-te a ignorância de me teres morrido. É essa a tua benção. Mas nunca perdoarei a tua morte.

Parabéns.

O Castelo

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